Moda. Essa palavrinha de quatro letras sempre fez com que eu me sentisse um ET, já que nunca foi meu forte ou mesmo meu interesse. Mas de uns anos para cá eu fui me interessando muito por um termo bem atual: branding.

Branding nada mais é do que o processo de construção e gestão de uma marca. É como uma empresa trabalha para ser vista e lembrada, mas o branding não está restrito às grandes empresas, ele também serve a pessoas como eu e você, que podem trabalhar a sua marca pessoal para se posicionar como profissional

Em outras palavras, branding significa comportamento e imagem, e o que mais pode representar a imagem pessoal do que a moda? Até porque moda é comportamento, sempre em constante mudança.

Comecei a estudar mais sobre o assunto para entender como posso usar a moda a meu favor, e consequentemente, te ajudar com esse processo. Mas eu entendo de fisioterapia e mídias sociais, não desse universo, então contei com o apoio de uma pessoa muito especial que vai falar um pouco com a gente sobre o assunto.

Recebam então o Rogério Duarte, publicitário e consultor de estilo aqui de Pompeia, responsável por cocriar este artigo comigo e nos explicar a relação entre moda e marca pessoal.

Vamos lá?

GB: Como você se envolveu com moda, Rogério?

Rogério: Desde pequeno gostei muito da área, mas na região que moro não tinha nenhum curso de Moda, então fiz Publicidade e Propaganda por orientação do meu pai. Ele me disse para começar com essa graduação por ter aqui onde moro e possuir alguma ligação com o setor, e quando estivesse mais estabilizado eu poderia enfim fazer o curso que queria. E, de fato, me identifiquei com a Publicidade.

Em 2008 visitei um ateliê de noivas em Curitiba, pois era casamento de uma prima e eu havia desenhado o vestido dela. Lá vi um anúncio que precisavam de um estilista. Fui convidado a trabalhar com eles, e me senti um pouco inseguro, já que sabia apenas desenhar, não tinha habilidades em corte e costura. 

Recebi a proposta de ficar um mês em experiência para ver como eu me saía. Passado esse período, fiquei mais 60 dias e depois disso fui efetivado. Nesse período, fiz minha inscrição para o curso de Técnico em Moda, no Senai Curitiba, e passei então dois anos trabalhando no ateliê durante o dia e à noite fazia o curso. 

Formei em 2010 em Moda, a partir disso trabalhei por seis anos lá no ateliê, com a produção de vestidos para noivas e festas, com editoriais de moda, foi um período bem bacana para mim. 

Depois desses seis anos eu saí e fui trabalhar como consultor de estilo na Versace, uma grife italiana. Isso me deu a oportunidade de conhecer o setor de Moda de Luxo, algo bem diferente da minha experiência no ateliê.

GB: O que te fez decidir a trabalhar com moda e estilo?

Rogério: Eu sempre gostei da parte artística e desenhar, tanto que desde os nove anos eu desenhava vestidos de noiva no caderno. Recebia até bilhetes dos professores, falando que eu não fazia a tarefa, só desenhava. 

Fui aperfeiçoando com o tempo, e minha mãe sempre me estimulou muito, assim como meu pai. Ela me comprava materiais de desenho, como lápis e papéis, enquanto meu pai me dava dicas de como melhorar os meus desenhos.

Minha família sempre deu muito apoio, mesmo não enxergando como uma profissão. Nem eu enxergava, a princípio. Fui entendendo com o passar do tempo que poderia profissionalizar esse meu talento

O incentivo e a valorização da minha família sobre a minha arte foi o que me incentivou a decidir por esse rumo.

GB: Além de consultor de estilo você também é publicitário. Você costuma trabalhar com esses dois setores separados ou consegue uni-los?

Rogério: Para mim funciona muito bem. Meu primeiro contato foi com Publicidade e Propaganda, que é venda. Você precisa acreditar naquilo para que você possa vender

Depois, quando eu fiz o curso técnico, eu precisava montar um catálogo de moda para o trabalho de conclusão de curso, e alguns alunos tercerizaram por não possuírem esse conhecimento de layout, arte e gráfica. O curso de Publicidade me deu isso, a chance de unir minhas duas experiências em publicidade e moda foi perfeito, pois consegui fazer exatamente como idealizei.

Atualmente, quando vou trabalhar com editoriais de Moda, não é só combinar sapatos ou que tipo de cabelo, enfim, não é apenas a parte estética. Existe um cuidado minucioso em conversar com o contratante para entender qual é a imagem que ele quer passar, o objetivo que pretende atingir com aquele editorial. 

Então é feito todo um estudo mercadológico, de conteúdo e produto, para depois desenvolvermos o trabalho artístico, que na verdade é isso que todo mundo vê nas revistas, nos sites e no Instagram. Eu costumo dizer que a beleza e o glamour são apenas o pico do iceberg, mas por baixo do nível existem várias outras coisas que, na verdade, é o que sustenta esse trabalho. 

Como diz Nizan Guanaes, um publicitário brasileiro, “Publicidade é mais transpiração do que inspiração”. Temos que trabalhar muito, pesquisar muito, para estruturar esse trabalho, para que esse glamour não venha vazio, e sim cheio de conteúdo.

GB: Sabemos que a gestão de marca leva em consideração vários fatores, que vão muito além do logotipo. A moda pode ser usada como estratégia de construção da marca e da identidade visual?

Rogério: Sim, mas é preciso analisar primeiro, pois para construir uma marca, você vai utilizar de várias estratégias de acordo com aquele segmento. A moda pode ser usada, desde que seja um segmento voltado para ela. 

Existe um estigma de que moda é luxo, o que não é verdade, pois existem várias vertentes da moda, e o luxo é apenas uma delas. A moda pode ser inserida em outro segmento, desde que ela esteja ligada com o perfil do produto que se deseja vender.

Por exemplo, o lançamento de um condomínio luxuoso pode buscar associar a imagem de poder e riqueza, e assim você vai colocar na propaganda pessoas bem vestidas, com um cabelo bem produzido, joias. Fazemos todo um trabalho de moda para passar essa mensagem, como seriedade, glamour, imponência.

A moda acaba tendo a função de ser uma embalagem, mas para que isso funcione, o produto precisa ter um conteúdo coerente com a mensagem transmitida.

GB: É mais fácil pensar na moda ao falarmos de modelos e influenciadores. Mas como micro influenciadores, produtores de conteúdo e até mesmo empreendedores e profissionais autônomos podem usar a moda para construir sua marca pessoal?

Rogério: A moda pode, deve e está sendo usada no meio corporativo. As pessoas contratam o personal stylist para traçar qual é perfil desse profissional e auxiliar a construir a sua aparência. 

E no mundo atual, a aparência é muito importante no meio corporativo, você deve estar sempre bem vestido. Porém, estar bem vestido não significa necessariamente usar uma grife ou uma roupa cara. O personal stylist vai traçar um perfil de acordo com a sua personalidade e desenvolver um estilo que tenha a ver com você

É muito bacana o relato das pessoas com quem fiz esse trabalho: a forma como o profissional muda, os elogios que recebo, como me olham diferente. Isso mexe com a autoestima da pessoa, consequentemente o trabalho melhora e rende mais. 

GB: Como pessoas comuns podem usar a moda para construir sua identidade no cotidiano?

Rogério: Gosto de enxergar essa divisão entre celebridades e pessoas comuns, porque é legal você se inspirar em alguém, mas é essencial buscar a sua própria identidade

Entender se você prefere estampas ou cores mais neutras, por exemplo. Se você vive em um lugar quente, você vai procurar roupas que tenham a ver com esse clima, com a sua personalidade e com o seu local de trabalho. Mas você também precisa levar em consideração o que faz você se sentir bem.

A construção de estilo é gradativa, você não acorda um dia como especialista. É aos poucos, percebendo com os comentários das pessoas, com o próprio espelho e como você se sente com aquilo. 

Ao mesmo tempo, essa construção depende também de muita observação e leitura, buscar informações e ler a respeito é muito interessante. Quando alguém quer mudar o visual, essa pessoa começa a pesquisar referências, e automaticamente já começa a pensar diferente na forma de escolher uma camisa ou planejar um corte de cabelo.

Falando assim pode parecer muito superficial, mas não é. A moda, quando usada de forma estratégica, é um verdadeiro efeito dominó. Ela reflete na sua autoestima, no seu trabalho e nos frutos que você colhe dele.

GB: Você acredita que a moda possui uma função social além da estética?

Rogério: Com certeza. Nós estamos acostumados a ver a moda como objeto de consumo, conceito esse que se iniciou com o fast fashion, através de lojas como Zara, Riachuelo, Renner, entre outras.

Depois dessa criação, todo mundo passou a se sentir um pouco estilista, ao ver as peças expostas e criar suas próprias combinações. O que pode gerar certos deslizes (e falo deslizes porque não acredito em certo e errado na moda), mas essa concepção ajudou a popularizar a construção de estilo em camadas sociais mais baixas.

A Zara é uma loja de departamento que eu gosto muito, outras lojas seguiram essa linha posteriormente, onde colocam um pessoal que entende do assunto, o visual merchandising, para montar as vitrines e deixar os modelos prontos para o consumidor. 

No início do fast fashion, as pessoas não estavam preparadas para isso, já que a moda conceitual e ter um estilo estava restrito à classe A, apenas. Hoje, o fast fashion levou a moda até outras classes, como B, C, D. Essas classes aprenderam a consumir moda através desse conceito.

Outro detalhe muito legal sobre o assunto é a questão da moda sustentável. Cada vez mais vemos tecidos ecologicamente corretos e a preocupação das marcas com o meio ambiente

A Osklen, por exemplo, é uma marca muito legal nesse aspecto. Ela trabalha com tecidos tecnológicos e tecidos naturais, é muito bacana. E se formos aprofundar no assunto, existem várias outras marcas que se preocupam com o meio ambiente e sustentabilidade. 

Eu gosto muito de frisar com esses exemplos de que moda não é futilidade, existe uma função social muito importante por trás dessa área.

GB: Quais dicas você dá para as pessoas que querem trabalhar com moda e estilo?

Rogério: Para falar sobre isso, preciso fazer uma analogia: a pessoa gosta de animais e decide fazer veterinária, mas ela gosta dos animaizinhos bonitos e saudáveis, e vai ser preciso lidar com animais doentes também.

A moda é a mesma coisa. Você pode gostar de consumir moda, de desfiles e revistas, mas trabalhar com moda vai além disso. Você precisa estudar muito, fazer pesquisa de mercado, que é muito exaustivo e trabalhoso. Para trabalhar com criação de coleções, você também vai pesquisar bastante sobre tecidos e cores.

As pessoas acreditam que trabalhar com moda é apenas dar dicas do que combina com o que, mas essa é apenas uma parte da moda. Eu digo que é a cereja do bolo, antes disso tem muito trabalho e estudo.

Eu cometi muito esse erro quando fiz faculdade. Como não gostava de matemática, fiz Moda por acreditar que não teria contato com a área. Mas para estudar costura e modelagem tive que saber sobre formas geométricas, e consequentemente, muita matemática. Só que a paixão pela moda era muito maior, então fui superando esses desafios.

Meu conselho então para aqueles que querem seguir esse estudo: procure se aprofundar, ler a respeito de como a moda surgiu. 

A História da Moda tem assuntos deliciosos para você aprender e conhecer a evolução da moda. As décadas de 1920, 1930 e 1940 são as que eu mais gosto, pois as pessoas lá se viravam com o que tinham. As modelagens eram mais bonitas e estruturadas devido aos únicos tecidos disponíveis na época, vindo dos uniformes militares. Usava-se cortes mais retos, tecidos mais estruturados… 

Enfim, o caminho é esse. Procurar se informar e estudar, para depois inserir o seu estilo dentro desse conhecimento, e assim você desenvolve a sua marca e sua identidade. É isso que vai fazer diferença no mercado.


Essa foi a primeira cocriação aqui na GB, com o Rogério Duarte nos dando uma aula sobre moda e construção de estilo. Não sei vocês, mas eu amei e tô doido para aplicar esse conhecimento na minha marca pessoal.

Se ficou alguma dúvida sobre o assunto, deixe aqui nos comentários que a gente te responde. Quero agradecer ao Rogério pela disponibilidade e pela ajuda incrível neste artigo!

E você, começou a ver a moda com outros olhos? Conta pra mim o que achou.

Um abraço e até a próxima!