Já faz algum tempo que eu, Gabriel Bellia, não produzo mais conteúdo no Instagram, e durante todo esse período fiquei me questionando se valia a pena retornar.

Lá no Instagram eu comecei o Tá Difisio e depois a Grambélia, por quase um ano eu produzi conteúdo seis vezes por semana, sem parar. Já cheguei inclusive a gerenciar cinco contas ao mesmo tempo, sendo uma delas de um cliente e as demais eram projetos meus.

Eu tenho até um artigo aqui no site falando sobre os nove motivos para estar no Instagram, justamente por acreditar no potencial da rede, e então parei toda a minha produção.

Como e por que um especialista em comunicação integrada no Instagram decidiu repensar sua presença na sua rede de especialização? Fica comigo que eu te conto!

Instagram X TikTok

Essa história começa no dia 30 de junho de 2021, quando Adam Mosseri, chefe do Instagram, fez uma publicação nas suas redes sobre as principais mudanças que poderíamos esperar para a plataforma.

Fonte: Adam Mosseri (Twitter)

Nisso, ele confirmou uma suspeita já antiga entre os usuários: o Instagram decidiu priorizar os conteúdos em vídeo para rivalizar com TikTok e YouTube.

O Instagram no início era uma plataforma de fotos, que acabou aceitando conteúdo em vídeo no feed, limitado a 1 minuto. Depois disso lançaram o IGTV, em 2018, que permitia mais tempo de duração, e mais recentemente os Reels, agora em 2020.

E a rede já mostrava um comportamento predatório, como a implantação dos Stories em 2016 para ultrapassar o Snapchat, depois de não conseguir comprar a empresa. O IGTV foi pensado para derrubar o YouTube, enquanto os Reels tinham o propósito de tirar mercado do TikTok.

O mesmo modus operandi do Snapchat: a empresa se nega a vender suas ações para o grupo Facebook, então eles lançam uma ferramenta similar e a promovem intensamente nas suas plataformas.

Contudo, o TikTok cresceu de uma forma que o Instagram não conseguiu acompanhar, e com isso todo o foco da rede caiu sobre o Reels. O próprio Adam cita isso em seu vídeo:

“Nós não somos mais um aplicativo de compartilhamento de fotos, ou um aplicativo de compartilhar fotos quadradas. […] Porque sejamos honestos, há realmente uma grande competição agora. TikTok é enorme, YouTube é ainda maior, e existem muitos outros iniciantes também.”

Adam Mosseri

E com isso ele afirma que o Instagram agora estará focando nos conteúdos em vídeo. O que ele não conta é que isso significa tirar o alcance dos conteúdos estáticos para dar visibilidade aos Reels.

Tanto que mudaram a interface da página inicial do app, colocando a aba Reels no lugar do botão de Enviar Conteúdo, a região de maior destaque da tela. Isso não foi feito à toa.

Mas qual é o grande problema disso?

O TikTok nasceu e cresceu como uma plataforma de vídeos curtos, o Instagram não. Sua especialidade eram as fotos, tanto que o nome do app vem de instant telegram, uma rede de fotos instantâneas.

Por mais que o Instagram inseriu vídeos e outros recursos, ele ainda era reconhecido como uma plataforma de fotos desde 2011, e depois de criar essa reputação sólida por nove anos, a rede jogou tudo para o alto para se tornar um aplicativo de vídeos similar aos que já existem.

O Instagram era soberano entre as redes de fotografias, e agora luta para se assemelhar às redes de vídeos que já estão consolidadas. O grupo destruiu o que havia de mais poderoso no Instagram: sua identidade.

Quem usava o Instagram, usava pelas fotos. Quem se encontrou no TikTok, foi pelos vídeos.

Achar que um público de fotos vai se tornar um público de vídeo, e que um grupo que já está familiarizado por um app de vídeos vai trocá-lo por outro similar, não foi uma aposta inteligente. Simples assim.

E isso leva a outro problema.

E se eu não gostar de vídeos?

Imagina que você começou a fazer faculdade de Administração. Você viu a proposta do curso, se identificou com a grade curricular, e tomou a decisão de seguir a área.

Porém, a instituição percebe que o curso de Veterinária está em alta, e resolve transformar o curso de Administração em Veterinária para surfar essa onda. Ela pode atrair mais pessoas interessadas no segundo curso, mas e quem tinha a vontade de ser administrador?

Essas pessoas vão largar o curso e procurar outra instituição, concorda? Pois é basicamente isso que tem acontecido com o Instagram.

Quando você muda a sua identidade, formato e objetivos sem consultar o seu público, está correndo o risco de perdê-lo.

Porque quem acreditava no Instagram desde o começo, estava familiarizado com conteúdo visual. Alguns podem saber o básico ou até mesmo gostar de produção de vídeos, mas não dá para garantir que todos vão seguir o mesmo caminho.

E se a plataforma que eles acreditavam deixa claro que a prioridade é um conteúdo totalmente diferente do que o consagrou, e muito diferente do que estavam acostumados e especializados, uma possibilidade é aproveitar esse conhecimento em outro lugar ao invés de mudar a sua produção.

Afinal, é mais fácil você cursar Administração em outra faculdade do que aprender Veterinária, não acha?

Dessa forma, vale a pena pensar se você realmente quer produzir no Instagram ou buscar outra plataforma.

O algoritmo ajuda ou atrapalha?

Alguns vão rever seu formato de conteúdo para se adaptar às novas políticas do Instagram, outros vão preferir migrar para novas plataformas. Não tem como prever, apenas entender o comportamento dos criadores.

Mas existe outro porém nessa história, que já vem sendo discutido há bastante tempo: o algoritmo do Instagram.

O Adam publicou um artigo no blog oficial do Instagram em junho desse ano sobre o funcionamento do algoritmo. Ele cita que na verdade não existe um algoritmo, e sim vários, que juntos entendem o tipo de conteúdo que cada usuário prefere.

Mas como o resultado final é o mesmo, pouco importa os detalhes, então podemos chamar de Algoritmo numa boa.

O algoritmo é um conjunto de códigos e processos que detectam as preferências do usuário e entregam aquilo que se assemelha aos seus favoritos. E por ser formado por códigos, o algoritmo não é bom nem ruim, e sim eficaz ou não.

Segundo o Adam, o Instagram tem como um dos critérios a sua interação com as contas. Quanto mais você curte, comenta e compartilha as publicações de um usuário, mais chances desse conteúdo aparecer no seu feed.

Com isso já temos um problema: e se eu sou do tipo de pessoa que vê as publicações, mas não comenta nem compartilha? O Instagram vai entender que esse é o meu perfil comportamental ou vai simplesmente inferir que esse conteúdo não me agrada?

Outro ponto é a frequência de postagem. Como a plataforma abandonou o feed cronológico pelo alto volume de publicações, nem tudo vai chegar para você. O Adam cita no artigo que eles evitam “mostrar muitas publicações sucessivas da mesma pessoa”, mas qual seria o número exato para isso?

Se você posta muito — e aqui não temos ideia do que seria esse muito — o Instagram não vai entregar tudo. E se você posta pouco — mais uma vez, não sabemos o que seria esse pouco — as pessoas interagem menos, já que existe uma avalanche de postagens diariamente.

Por isso, o artigo mostra que o algoritmo não entrega o seu conteúdo para todos os seus seguidores.

Cerca de 10% dos seus seguidores verão as suas postagens no feed, os outros 90% não terão conhecimento delas. Quando você tem 100 mil seguidores, 10 mil receberão as publicações, mas para quem tem 100, apenas 10 vão saber que tem conteúdo novo.

E quantos desses 10 vão curtir, comentar e compartilhar? É difícil prever.

Para contornar esse problema, o Instagram oferece o impulsionamento de postagens, em que você promove um post para alcançar mais pessoas, inclusive pessoas que não te seguem.

Mas você percebe que, no fundo, é preciso colocar dinheiro no Instagram para que as pessoas que te seguem — por livre e espontânea vontade e interesse — possam receber o que foi postado dentro da própria rede?

É difícil afirmar que o algoritmo do Instagram é eficaz com todas essas particularidades.

O que você produz X o que o Instagram oferece

Eu disse lá atrás que agora você pode escolher entre começar a produzir vídeos ou migrar de rede, mas a verdadeira pergunta é bem mais complexa do que isso: o Instagram é de fato a melhor plataforma para você?

Falando da minha experiência como produtor de conteúdo, meu ponto forte sempre foram os textos. Eu me expresso muito melhor na escrita, consigo organizar melhor minha linha de raciocínio e ser mais didático escrevendo.

Mas o Instagram não é o melhor lugar para textos, pois temos um limite de 2.200 caracteres, e o seu foco é audiovisual. Se eu quiser escrever, preciso postar uma foto ou vídeo junto.

Se eu quiser montar um artigo completo como esse, não tenho como fazer no Instagram, será preciso achar fotos e vídeos para postar com o texto, e fragmentá-lo para caber em diversas postagens.

Eu sempre bolei meu conteúdo primeiro em texto e depois em imagens, e isso não faz sentido. Ao invés de encontrar fotos que se adequem ao texto, eu poderia postar o artigo em um lugar específico para isso, e talvez ilustrar com imagens.

Detesto fazer vídeos, já tive várias experiências como videomaker que não foram agradáveis para mim, inclusive um vlog no YouTube muitos anos atrás.

Eu me incomodo com a forma como não consigo focar na câmera, se a iluminação não estiver 100% boa, com o cenário, a produção e edição do vídeo, a minha imagem e o que eu estou usando… Se eu me forçar a produzir vídeos, não vou garantir um bom trabalho, já que odeio fazer isso.

É a mesma coisa de quem odeia academia: é melhor insistir na musculação, que você não gosta, ou buscar outro tipo de exercício que te agrada?

Foi assim que eu encontrei o podcast. Eu posso montar o texto para o blog e depois transformar em áudio, sem me preocupar com todos aqueles pontos do vídeo. Assim eu posso explorar outros formatos sem ter essa rigidez de me prender a algo que eu não gosto.

Se você não quer trabalhar com vídeos — o foco do Instagram agora — sugiro encontrar a plataforma que se adeque melhor aos seus interesses.

Para textos, Facebook, LinkedIn, Tumblr, Twitter e Medium são boas escolhas. Para vídeos, YouTube, TikTok e Kwai são alguns exemplos.

Para podcasts, o Anchor vale muito a pena para você que é produtor. É o que eu uso atualmente e te permite publicar em várias mídias, incluindo o Spotify. Mas se você só quer consumir, tente Spotify, Deezer e SoundCloud, entre outros.

E para as imagens, existe o Pinterest, Behance, Tumblr, Twitter, DeviantArt, ArtStation, Snapchat, e por aí vai. Cada rede tem sua especificidade, e você pode encontrar a que mais se adequa ao seu perfil.

Mas os meus seguidores estarão nessas plataformas?

Olha, nem sempre, mas cada rede tem o seu público definido, e pode receber novos usuários todos os dias. Você prefere ter 5.000 seguidores no Instagram que não interagem com o seu conteúdo, ou 100 em outra plataforma que estão sempre engajando com o seu trabalho?

É tudo uma questão de pontos de vista.

Então eu devo desistir do Instagram?

Seria ótimo eu responder essa pergunta com “sim” ou “não”, né? Mas não é tão simples assim, é preciso pensar em vários detalhes, e o principal é: você quer continuar no Instagram?

Eu tenho os meus motivos para me posicionar sobre o Instagram, você pode ter os seus, e os nossos contextos podem não se cruzar. Inclusive, esse é um grande problema dentro do meio de comunicação digital, é muito influencer e guru dando ordens sem conhecer a sua trajetória.

Eu posso sair do Instagram, encontrar outra plataforma e fazer muito sucesso, mas isso não garante que você vai ter o mesmo resultado. Ou então você decide continuar no Instagram, e dá muito mais certo do que eu já consegui.

Você precisa refletir sobre tudo isso que eu apresentei aqui e tirar as suas próprias conclusões, pois somente você poderá definir o que é melhor para você. 

Eu, Gabriel Bellia, decidi não mais ser um produtor de conteúdo no Instagram, vou apenas movimentar as minhas redes esporadicamente, porque eu prefiro investir meu tempo e energia nas redes em que eu possa explorar o que eu faço de melhor: áudios e textos.

Ainda existe vida no Instagram, não podemos negar, e a forma como você se dedica ao seu projeto é um grande indicador de como você vai crescer, independente da plataforma escolhida.

O que eu quero te fazer pensar é: o Instagram não é a única escolha, fazer diversos Stories todos os dias não é regra, e gravar dancinhas para o Reels não é necessário, se você não quiser.

E se me permite um conselho, assista esse vídeo da Nátaly Neri, falando sobre algoritmo das redes, fluxo de conteúdo e saúde mental. Vale MUITO a pena.

Fonte: Nátaly Neri (YouTube)

E é isso. Um abraço, e até mais!

Referências: