Quando a sua opinião se torna desinformação, volte três casas

Esse poderia ser mais um dos milhares de conteúdos que contaminaram a internet sobre a invasão russa na Ucrânia, a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, e até mesmo como você deve investir na bolsa de valores durante esse período.

Vou deixar essa história para outra oportunidade, pois só de lembrar que vi esse absurdo já me bate a revolta.

Como boa parte dos comunicadores, eu poderia usar esse espaço para dar a minha opinião sobre o assunto, mas vou seguir o caminho inverso para reforçar uma das coisas mais importantes que nós deveríamos entender sobre influência digital e produção de conteúdo: 

Você não precisa, e algumas vezes nem deve, dar a sua opinião sobre tudo.

Para ilustrar essa ideia, vamos observar o caso da Rafa Kalimann, influenciadora mineira e ex-BBB. 

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia neste dia 24, a Rafa fez uma série de cinco tweets explicando aos seguidores sobre os motivos que levaram à investida russa. E obviamente isso repercutiu muito mal, pelos seguintes motivos:

  • Ela começa o resumo dizendo ser a sua visão pessoal sobre o conflito;
  • Compara OTAN a URSS, sendo que a segunda foi um país, enquanto a primeira é uma aliança militar. Organizações diferentes com atuações diferentes;
  • Erra ao dizer que a capital ucraniana, Kiev, já foi capital da Rússia, que nunca aconteceu;
  • Apresenta uma visão bastante reducionista e simplista do conflito, ignorando vários elementos russos e ocidentais que contribuíram com a guerra;
  • Usuários perceberam que ela copiou as informações de outra pessoa, um estudante de História, sem dar os créditos;
  • Ao ter os equívocos apontados na série, fez outro tweet debochando dos usuários.

Só por esses motivos já entendemos porque a atitude dela pegou tão mal, mas é essencial frisar uma informação desse resumo: sem ter qualquer conhecimento em geopolítica do leste europeu, a Rafa decidiu dar a sua opinião sobre toda uma trama de acontecimentos que culminou numa guerra.

Talvez você acredite que a intenção dela foi boa e que não é necessário criticá-la por ter se esforçado, só que essa atitude é mais uma disseminadora de informações falsas, e para alguém com 3,2 milhões de seguidores no Twitter, o alcance disso é gigantesco.

Vale lembrar que o Twitter é conhecido por ser uma rede de distribuição de conteúdo, muito do que é produzido nessa rede é replicado em outras mídias. Assim aumentamos o potencial de pessoas impactadas por uma série de informações falsas.

Se a Rafa tem uma visão alinhada aos EUA, a análise dela sobre o conflito é uma. Caso ela seja pró-Rússia, será outra. E nesse meio ela segue influenciando pessoas, que compram o seu discurso como verdade absoluta por considerá-la uma referência.

Esse problema surge da ideia que ciências humanas não são ciências, e podem ser entendidas como opinião. Mas fatos históricos são fatos, contextos não podem ser desprezados, e quem não entende do assunto não pode explicar o que não conhece.

Se um influenciador resolve opinar sobre como médicos devem conduzir uma cirurgia sem ter formação médica, ou questões envolvendo a construção de um prédio sem ser engenheiro, arquiteto e afins, nós não devemos levar em consideração, certo?

Da mesma forma, para opinar sobre a invasão da Ucrânia, é preciso saber sobre o assunto e ter responsabilidade com a informação transmitida.

Quando a sua opinião se torna desinformação, volte três casas, para o seu bem e da sua audiência. Não dá pra tolerar que pessoas sem qualquer noção sobre um assunto resolvam se tornar porta-vozes daquilo que desconhecem. Isso é nocivo.

E como ela poderia ter conduzido o assunto? Exatamente como o Casimiro fez.

O youtuber e streamer convidou para uma live Tanguy Baghdadi — professor especialista em Política Internacional — ajudando o seu público a compreender o que estava acontecendo e tirar suas dúvidas com alguém que pode dar respostas concretas e embasadas.

A partir do momento que ele usa a sua visibilidade para dar voz a quem entende do assunto, ele direciona sua audiência às fontes confiáveis de informação. Isso ajuda a diminuir o medo e a histeria, além de impedir que teorias da conspiração e rumores falsos surjam sem controle.

Isso não é diminuir os influenciadores que não possuem uma formação acadêmica completa — o famoso academicismo — é entender que, como comunicador, você precisa ter propriedade naquilo que deseja abordar. Seja por estudos próprios, seja por uma pesquisa de trabalho.

Esse episódio nos ajuda a entender que, caso você não saiba o bastante sobre um assunto, é legal se preservar e poupar sua audiência. Ao invés de buscar visibilidade em cima de algo que está em alta e você não domina, por que não focar no que você entende e faz de melhor?

Portanto, uma internet segura e responsável se faz com menos Kalimanns e mais Casimiros, sua inteligência moral de admitir que não entende sobre algo, mas se dispõe a dar espaço para que alguém capacitado possa tomar a frente. 

Não é vergonha nenhuma dizer “não sei o suficiente disso” e ouvir o que os especialistas têm a dizer. Nós devíamos experimentar isso mais vezes.

Recomendo fortemente o episódio “O que Brand Safety, Flow e BBB têm em comum?” do podcast Dia de Brunch, conduzido pela Ana Paula Passarelli e pela Issaaf Karhawi. Elas passam uma visão interessante sobre o posicionamento de influenciadores em relação à profundidade do seu conteúdo.

Um abraço, e a gente se vê por aí.

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