Elon Musk comprou o Twitter, e agora?

O mês de abril foi agitado para os acionistas do Twitter. No dia 04, descobrimos que Elon Musk comprou 9,2% das ações do site e se tornou o maior sócio da rede. No dia 14, ele fez uma proposta de comprar toda a empresa, e nesta segunda, dia 25, ele comprou.

A princípio, isso pode parecer uma notícia banal, já que grandes empresários compram empresas todos os dias, mas esta não é uma situação comum, pois estamos falando do homem mais rico do mundo e de uma das maiores redes sociais da atualidade.

Quais foram os motivos que levaram a essa decisão, como os acionistas reagiram e o que podemos esperar da aquisição? Vem comigo que eu te conto!

Quem é Elon Musk?

Para começar essa história, é preciso entender o nosso protagonista, um grande empresário ligado ao setor tecnológico, dono das empresas Tesla, de carros elétricos, e SpaceX, de exploração espacial.

De acordo com a revista Forbes deste mês, Musk foi consagrado como o homem mais rico do mundo, tendo sua fortuna avaliada em 219 bilhões de dólares. Ele passou oficialmente Jeff Bezos, dono da Amazon, que liderava a lista há quatro anos.

Além disso, há um fato importante sobre o nosso empresário: ele é um twitteiro raiz. Possui conta no site desde 2009, e nos últimos anos se tornou bastante ativo na rede, até mesmo polêmico.

Desde chamar Vladimir Putin para um duelo até ser processado por difamação, a passagem do magnata na rede social não foi nada anônima, tendo em vista que ele não se importa em falar o que pensa no seu perfil.

E esse comportamento se tornou uma enquete no próprio Twitter, em que ele pergunta aos seus seguidores: “A liberdade de expressão é essencial para uma democracia em funcionamento. Você acredita que o Twitter adere rigorosamente a esse princípio?”.

Dos 2.035.924 votos, 70,4% responderam que não. Isso leva a um dos grandes questionamentos de Musk sobre o aplicativo.

Twitter e a liberdade de expressão

A principal crítica do empresário é que o Twitter não respeita a liberdade de expressão dos seus usuários, e portanto, atenta contra a democracia. O banimento do ex-presidente Donald Trump no ano passado, por exemplo, foi criticado por Musk na época.

Ele afirma que a rede monetizar anúncios é uma forma de se manter preso ao que as grandes corporações querem que a rede divulgue, e por isso propôs o fim dos anúncios, tal qual o fim do algoritmo e abrir o código-fonte do site.

Não é a primeira vez que usuários criticam a atuação do Twitter sobre a legalidade das informações. Em janeiro deste ano, a hashtag #TwitterApoiaFakeNews entrou nos tópicos mais comentados devido à falta de um sistema para denunciar notícias falsas no Brasil, que já existia em outros países.

Além disso, a plataforma já foi acusada de verificar perfis que propagam desinformação e proteger estes usuários de ações regulatórias. Vale lembrar que o Twitter anunciou uma série de medidas para combater fake news durante as eleições gerais deste ano.

O preço e as consequências da suposta liberdade

O empresário tem sido um defensor fervoroso da liberdade de expressão, o que foi apontado como a sua grande motivação para adquirir o controle do Twitter. Por outro lado, o magnata foi convidado a fazer parte do conselho administrativo da empresa, e ter poder de decisão, mas recusou.

Em resposta, o Twitter adotou uma estratégia chamada “poison pill”, a pílula venenosa, para impedir os planos de Musk. Essa jogada oferece descontos nas ações aos demais acionistas para incentivá-los a defender sua posição no quadro corporativo, tendo em vista que consideram a investida de Musk hostil.

Como não foi efetivo frente ao impulso do magnata, o Twitter foi vendido por 44 bilhões de dólares e se tornou uma empresa de capital fechado, controlada apenas por Elon Musk.

Dentre as suas propostas, ele defende alguns pontos solicitados há anos por usuários, como a opção de editar tweets, mostrando que ele realmente ouve as demandas internas. Sugeriu também a autenticação de humanos, o que pode diminuir a procedência de bots na plataforma.

Bots são robôs ou contas falsas, usadas para objetivos específicos de apoio ou desmobilização, um problema sério das redes sociais. Caso a proposta entre em vigor, pode ser muito positiva ao Twitter.

Aliado ao fato de abrir o algoritmo para os internautas, mostrando como a rede seleciona e entrega o conteúdo, tem grandes chances de revolucionar as mídias sociais. Assim teremos plena consciência de como o conteúdo chega às nossas redes e de outras pessoas, suprimindo a dependência dos algoritmos.

Contudo, sua proposta de reduzir a moderação de conteúdo é um tanto nebulosa. Em tese, todo usuário terá o poder de controlar o que chega até o seu perfil, mas também o de criar as suas próprias redes de distribuição de conteúdo.

Isso significa que cada pessoa pode transformar seu perfil em um veículo de comunicação, em que o único filtro para averiguar a veracidade das informações é a sua vontade pessoal. A moderação de conteúdo é feita por pessoas, e portanto, está sujeita às ideologias dominantes do grupo.

Isso acontece no Mastodon e Telegram, redes sociais conhecidas pela permissividade ao neonazismo, intolerância religiosa e racial, discursos de ódio, negacionismo científico e até mesmo pornografia infantil.

Qual a chance de também vermos isso no Twitter?

Liberdade só para alguns

Como foi dito, Elon Musk recebeu o convite de integrar o quadro administrativo da rede social ao se tornar sócio majoritário do Twitter, e recusou. Ele poderia dar vazão às suas ideias, mas preferiu tomar o Twitter inteiramente para si por acreditar que o quadro executivo “não faria as mudanças necessárias”. 

Seria uma forma de ferir a liberdade de expressão dos acionistas? Ou será que Elon Musk só é capaz de provocar mudanças benéficas quando possui controle absoluto?

O magnata tem ideais complexos sobre o assunto. Em relação ao banimento de Donald Trump, Musk sugeriu que a decisão foi autocrática e injusta, ainda que o ex-presidente tenha sido banido da plataforma por ferir os termos de uso, incitando seus apoiadores a invadir o Capitólio, e isso causou a morte de pessoas no evento.

Com a mais recente aquisição, Musk disse cogitar a ideia de remover o banimento de Trump, e com isso abre um precedente perigoso: se eu concordar com você, as regras são outras. Justamente o que ele critica sobre a plataforma.

Já em 2020, no contexto das eleições na Bolívia, Elon Musk declarou em seu perfil no Twitter, ao ser questionado sobre a intervenção dos EUA contra Evo Morales: “Nós vamos dar golpe em quem quisermos, lide com isso”.

Dizer isso em uma situação de um possível golpe de estado, causado por outro país com interesses comerciais e um sério histórico de intervenções nada democrático, é bastante complexo. Tanto que a postagem foi apagada do seu perfil.

Além disso, o empresário já foi multado pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC, por uma jogada na Tesla dentro do Twitter. Ao dizer que fecharia as ações da empresa na Bolsa por 420 dólares, ele gerou um movimento massivo de investidores e aumentou o valor das ações em 10,98%.

Como as promessas de Elon Musk não foram cumpridas, a justiça estadunidense entendeu que o empresário cometeu fraude, enganando os investidores e usuários, para valorizar a própria empresa.

Isso gerou uma multa de 20 milhões de dólares e a saída do seu cargo de presidente da Tesla, tal qual o impedimento que o magnata fizesse parte do quadro administrativo de outras empresas de capital aberto. 

Lembra que o Twitter era uma empresa de capital aberto, e que Musk se recusou a fazer parte da administração, preferindo comprar a empresa e torná-la de capital fechado?

Se essa é a visão do mais novo e único dono do Twitter, podemos imaginar o que vai acontecer com a plataforma. Todos os comportamentos dele apontam para uma gestão autocrática e polarizada, o que pode transformar a rede em um ambiente ainda mais tóxico e prejudicial à democracia que Musk tanto defende.

É hora de abandonar o barco?

Desde o anúncio da aquisição, o assunto viralizou na rede, ao ponto de hashtags como #AdeusTwitter e #RIPTwitter alcançar os trending topics, e como twitteiro e comunicólogo, o que eu gostaria de dizer nesse momento é: calma.

A compra ainda não foi oficializada, e mesmo que seja, tudo que foi abordado neste artigo são possibilidades, logo, não necessariamente serão efetivadas.

O Twitter se tornou uma grande rede de distribuição de conteúdo e informação, é notória a sua influência na formação de opinião e notícias. Muito do que é discutido em outras redes sociais vêm do Twitter, tendo em vista que seu objetivo é democratizar a informação em tempo real.

Contudo, não é inteligente abandonar uma rede social simplesmente porque você não tem apreço pelo corpo administrativo. Sem contar que, caso essas previsões se concretizem, esse é o momento de firmarmos nosso espaço no Twitter para oferecer um contraponto à polarização de conteúdo.

Já passou da hora do coletivo de usuários parar de fugir de rede em rede ao invés de afirmar o seu lugar. Até lá, o Twitter continua sendo uma das plataformas mais influentes e com potencial consolidado, aproveite a oportunidade para se fortalecer na rede e explorar ao máximo sua funcionalidade.

Por fim, quero dedicar esse artigo ao meu amigo John. Se não fosse pela sua insistência irritante, não teria me dedicado tanto a esse artigo. Amo você!

Um abraço, e a gente se lê por aí.

Referências

2 comentários sobre “Elon Musk comprou o Twitter, e agora?

  1. Elon Musk, pra mim, é o simbolo do capitalismo escravocrata e aproveitador.

    A existência de alguém bilionário é algo que eu contesto, e contesto ainda mais a mania que eles tem de achar que são deuses e que o dinheiro deles compre tudo — porque só compra quase tudo.

    Algo que não se pode comprar no mercado de ações é o respeito e a apreciação que as pessoas tem pela democracia. Se ele acha que por controlar o maior veículo midiático que existe por essas terras da grande rede mundial de computadores ele vai conseguir decidir quem vai ou não ser censurado, quem vai chegar ou não no poder ou o que é liberdade de expressão, ele está enganado.

    A gente se xinga por aí, Gabriel. Ótimo texto, apesar de eu não gostar de admitir quando você dá bola dentro.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s