Por que é tão difícil desapegar do Instagram?

Nas últimas semanas recebemos a notícia de mais uma grande atualização do Instagram, que foi recebida com frustração por boa parte dos usuários: uma nova identidade visual e um feed semelhante ao TikTok, com os conteúdos em tela cheia.

Não é segredo que a Meta tem como grande objetivo desbancar o TikTok, transformando o Instagram em uma cópia do app rival. Contudo, mesmo que os usuários estejam insatisfeitos, ainda resistem ao abandono da rede.

Já parou para pensar porque somos tão apegados às redes da Meta e como quebrar esse ciclo? O que pode haver de tão especial no Instagram que ainda nos mantém reféns de uma rede que se preocupa mais com a concorrência do que com os próprios usuários?

Por incrível que pareça, essa história remonta aos primórdios das redes sociais, em especial à época do Orkut nos anos 2000. Vamos falar sobre isso?

Um passado não tão distante, mas incrivelmente nostálgico

Se você usava a rede, provavelmente deve se lembrar de como era o contexto da internet 20 anos atrás: banda larga discada, com baixa velocidade e capacidade de downloads. Você sabia quando alguém usava a internet ao ligar no telefone fixo da casa, que exibia um som característico e não completava a linha.

Som da conexão discada.

Era muito comum usar a internet de madrugada e finais de semana, pois a tarifa era bem menor nesses horários, sem contar que a conexão necessitava de cabos. O Wi-Fi só chegou ao Brasil em 2008, e os smartphones em 2009, sendo popularizados mesmo em torno de 2015.

Em resumo: não era tão simples assim fazer qualquer coisa na internet naqueles tempos, pois a internet era lenta e limitada aos computadores.

Printscreen da tela inicial do Orkut.
Printscreen da tela inicial do Orkut. Via: Jorge Curtis.

Nessa época, a rede social mais usada no Brasil era o Orkut, que fazia parte da Google, até ser substituída pelo Facebook em meados dos anos 2010 e desativada em 2014. Ambas as redes partilham alguns pontos importantes: 

  • nasceram no início dos anos 2000;
  • são nativas do modelo desktop;
  • priorizam contato com pessoas conhecidas.

Pode parecer óbvio, mas tanto o Orkut quanto o Facebook querem que você se conecte com pessoas que já fazem parte do seu ciclo de conhecidos. Até porque o sistema de conexão de ambas as redes funciona por convites de amizade.

Printscreen da tela inicial do Facebook na aba Amizades.
Printscreen da tela inicial do Facebook na aba Amizades. Via: Oficina da Net

Muitos usuários no Orkut só aceitavam solicitação de quem conheciam, mantendo avisos sobre isso no perfil. No Facebook, o hábito se mantém até hoje, sendo mais comum termos apenas pessoas próximas como amigos.

Já o Instagram surgiu em 2010, quando estávamos na transição do desktop para o mobile, de tal forma que a rede já começou sendo um aplicativo para celular. Isso muda completamente a nossa história.

Uma nova rede com os velhos hábitos

Nessa época se tornou mais fácil ter acesso à rede de qualquer lugar, e com isso, a forma como enxergamos a internet se revoluciona. Um dos grandes motivos que levaram à queda do Orkut, diga-se de passagem.

Seguindo os passos do Twitter, uma rede mais impessoal, o Instagram traz o sistema de seguidores: você não está ali para fazer amigos, e sim para seguir pessoas e acompanhar as suas postagens.

Printscreen de um perfil no Instagram, com destaque para o botão “Seguir de volta”.
Printscreen de um perfil no Instagram, com destaque para o botão “Seguir de volta”. Via: Oficina da Net.

Diferente dos seus antecessores, que ofereciam comunidades aos seus usuários, o Instagram surgiu com a proposta de ser um álbum de polaroids digital. Você cria a sua conta, tira sua foto, escolhe um filtro e posta. A intencionalidade da rede é muito diferente do que víamos no Orkut e Facebook.

No entanto, para o usuário isso não ficou muito claro. 

Nós apenas assimilamos o Instagram por ser a rede do momento e porque os nossos amigos estavam indo para lá, e nosso objetivo na época era nos conectarmos com os conhecidos, não é?

Só que a intenção do Instagram é totalmente oposta àquela que nós damos a ele: enquanto a rede prioriza seguir desconhecidos, nós seguimos nossos contatos. E até hoje buscamos o equilíbrio entre acompanhar influenciadores e os nossos amigos, criticando as atualizações que dificultam o acesso às publicações de conhecidos.

As nossas expectativas são herdadas de redes pessoais, enquanto usamos uma rede mais impessoal. E isso no ponto de vista do usuário consumidor de conteúdo; para o produtor, o buraco é mais embaixo.

É difícil desapegar do que é familiar

Você começou a usar o Instagram como um simples consumidor de conteúdo, até o momento em que percebeu que poderia produzir conteúdo e gerenciar um canal profissional na rede. Deixamos de postar fotos com filtros para publicar sobre trabalho e carreira e manter seu próprio veículo de comunicação.

O Instagram prioriza pessoas desconhecidas, certo? Tanto que agora vemos mais conteúdo de contas que não seguimos, pois o algoritmo foca no alcance das contas. Entretanto, fazemos isso com a mentalidade de quem ainda busca se aproximar de pessoas conhecidas.

Essa rede se tornou um local familiar, algo que remete aos nossos círculos reais, mas em um lugar que não é pessoal. É como dizer que a sua empresa é uma grande família: nunca é, e você só vai se frustrar enquanto continuar agindo como se fosse.

Sempre que o Instagram derruba o alcance das contas para forçar o produtor a investir dinheiro em anúncios, você sente que precisa se desdobrar ainda mais para ter um retorno mínimo da sua audiência. Mas cogitar a ideia de explorar outras redes ainda é inviável, pois o Instagram é um local familiar.

Você acredita que apresentar o seu trabalho em redes que os seus amigos não usam vai ser um tiro no pé, e ainda enxerga as redes sociais como aquela pessoa que quer se aproximar dos familiares e colegas. Isso moldou a nossa experiência como usuários de redes sociais, de forma que não as enxergamos de outra maneira.

Entretanto, o verdadeiro poder das redes é te aproximar do seu público, principalmente dos seus possíveis clientes. Que, convenhamos, na maioria das vezes não são os seus conhecidos.

Pode fazer sentido para estabelecimentos físicos, onde as relações do comerciante se transformam em movimento. Já na internet, o movimento vem de usuários diversos em redes diversas; o alcance, o formato e a identidade do conteúdo representam muito mais do que o local em que eles são publicados.

Sendo assim, não se limite ao Instagram porque os seus conhecidos estão lá. Pense que trabalhar em outras redes vai ser desafiador no começo, mas você terá a chance de se conectar ao público certo para o seu negócio.

Se eu não estiver no Instagram, para onde vou?

Não existe uma receita de bolo, já que existem inúmeras redes sociais e cada uma tem o seu diferencial. Para entender o que é mais vantajoso, é necessário conhecer profundamente a natureza do seu conteúdo. 

Você tem uma loja virtual de itens decorativos? Redes visuais casam melhor com a proposta. O Pinterest é um exemplo perfeito, lá os usuários buscam inspirações visuais, então a estética conta muito, e a rede facilita muito o tráfego orgânico para seu site.

É um autônomo que presta serviços? Mídias textuais e nichadas podem trazer mais resultados, como o LinkedIn. Conhecida por ser uma rede profissional, produzir conteúdo no LinkedIn te aproxima de empresas e agentes de RH, assim como te ajuda a criar autoridade digital.

Dependendo do nicho, você pode explorar outras redes, como o Behance para fotógrafos e designers, DeviantArt, Patreon e ArtStation para artistas, Medium e WordPress para jornalistas e blogueiros.

Sabe criar vídeos como ninguém? Seria interessante focar em plataformas audiovisuais, como YouTube, TikTok e Twitch. Você pode trabalhar com vídeos curtos ou longos, adaptar o conteúdo ao seu segmento, e com isso alcançar públicos diversos que se interessem pelo assunto.

E se eu quero ser só usuário mesmo? Bom, aí é mais fácil: veja que tipo de rede você se sente mais confortável e em quais delas você encontra seus amigos. Ter um Facebook para contatos e outra rede para o formato que você gosta é sucesso garantido.

Isso significa que você deve abandonar o Instagram de vez? Não, as redes sociais mudam a todo momento, nada é cristalizado quando falamos no assunto. Porém, entenda que as redes sociais não se resumem ao Instagram, existe vida além do arco-íris do Zuckerberg.

Se não der certo, continue procurando. Se der certo, por que não?

Para quem tem um negócio, antes de se preocupar tanto com o Instagram, pense em ter um site, blog ou loja próprio, além de ocupar o seu espaço no Google Meu Negócio. Você pode não estar em todas as redes sociais, mas se a sua empresa é facilmente encontrada no Google, você já sai ganhando.

Printscreen da tela inicial do Google Meu Negócio.
Printscreen da tela inicial do Google Meu Negócio. Via: Google Meu Negócio.

E se você decidir que o Instagram não vale mesmo a pena, lembre-se que o seu trabalho não está atrelado a uma única rede. Diversifique, tente e arrisque, você pode se surpreender.

Um abraço, e a gente se lê por aí.

Referências

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