Não é aceitável compartilhar informações de pacientes

Este é o terceiro artigo sobre o caso Klara Castanho, por causa da natureza revoltante em que a atriz foi envolvida, mas também pelo impacto disto no contexto da comunicação digital.

No primeiro artigo falamos sobre Léo Dias, os detalhes do ocorrido e questionamos os princípios éticos no jornalismo. No segundo, apresentamos Antônia Fontenelle, como aconteceu a exposição e discutimos sobre comportamento digital e retratações públicas.

Hoje vamos abordar o terceiro elemento dessa narrativa: os profissionais de saúde e sua abordagem inescrupulosa no vazamento de informações sigilosas.

Para quem ainda não soube do caso nem acompanhou os outros artigos, Klara Castanho passou por um processo de adoção depois de ter sido estuprada. Ela só descobriu a gravidez perto do parto, pois seu corpo não teve alterações convencionais, e optou pela adoção ao invés do aborto.

Contudo, enquanto realizava o procedimento, uma enfermeira chantageou Klara e vendeu as informações sobre o seu caso para jornalistas. Muitos decidiram não publicar ao saber os detalhes, com exceção de Léo Dias, do portal Metrópolis, que divulgou os dados do parto, nome da atriz, do hospital e dados da criança.

O marido da enfermeira teria entrado em contato com jornalistas e redes de jornais e televisão para vender a notícia, ainda que tenha recebido várias respostas negativas pela violação ética do caso. Um dos contatos foi Léo Dias, que antes de publicar a matéria, falou indiretamente sobre o caso em uma entrevista ao programa The Noite, do Danilo Gentili.

Segundo o jornalista André Romano, a enfermeira foi demitida do hospital, enquanto o Coren (Conselho Regional de Enfermagem) de São Paulo se pronunciou, indicando que investigarão a denúncia.

Conforme reportagem de hoje (05/07/2022) do Jornal Nexo, o Hospital Brasil, no qual a artista fez o procedimento, se recusou a conceder acesso ao prontuário ao Coren-SP e também não apresentou os dados da enfermeira que cuidou de Klara e vazou as informações.

Há muita perversidade nessa situação toda, que culminou com a exposição de uma mulher violentada e um linchamento virtual causado pela falta de ética profissional de vários envolvidos. Em especial de uma enfermeira, que por lei e pelos códigos de conduta da profissão, jamais deveria ter vazado tais dados.

O ocorrido reacende a discussão sobre compartilhamento de informações particulares de pacientes, seja nas redes sociais ou fora das mídias. Muitos profissionais da saúde que postaram seu repúdio à enfermeira podem publicar dados sensíveis de casos clínicos nos seus perfis sem a maturidade de entender a gravidade da situação.

A enfermeira que vazou a gravidez de Klara Castanho para jornalistas não está tão longe do médico que conta “causos” de pacientes no Twitter, a única diferença está no alcance das informações. Uma publicação sobre um quadro clínico ou uma situação inusitada pode viralizar nas redes, chegar até o paciente ou pior, identificá-lo. O tal profissional entende a dimensão do problema?

Vários órgãos oficiais, como o Conselho Federal de Medicina (CFM), já se posicionaram sobre boas práticas em saúde nas redes sociais, e com a exposição da gravidez da atriz, temos que afirmar nosso compromisso em zelar pela segurança e privacidade dos pacientes.

Segundo o relato de Klara, a abordagem da enfermeira não foi a única violência sofrida no hospital. O seu médico, sabendo que ela havia sido estuprada, forçou a garota a ouvir os batimentos no ultrassom para nutrir afeto pela criança. 

O próprio Ministério da Saúde recomenda respeitar a decisão de pacientes nestas circunstâncias sobre ter ou não contato com sons e imagens relacionadas à gestação, evidenciando a falta de ética do suposto profissional.

Não basta se revoltar com a violência institucional cometida contra Klara Castanho, é preciso fazer diferente. Enquanto tivermos ditos profissionais — especialmente na área da saúde — que acham normal vazar dados de pacientes, outros abusos com o da atriz continuarão acontecendo. Mesmo com baixa repercussão.

Um abraço, e a gente se lê por aí.

2 comentários sobre “Não é aceitável compartilhar informações de pacientes

  1. Uma das coisas que eu sempre digo quando um caso desses viraliza é: os agressores vão ser punidos, mas quantos casos como esse acontecem e são ignorados e saem impunes? ________________________________

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    1. Infelizmente isso é uma regra quando devia ser a exceção. Ainda que já existam delegacias especializadas em crimes virtuais, nem sempre conseguem cumprir a demanda e boa parte dos casos nem mesmo é denunciada, pois as pessoas não sabem como fazer e nem mesmo sabem que podem se defender dessas situações.

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