Por que a construção narrativa de Will em Stranger Things é problemática?

Para os amantes de séries, Stranger Things é uma das mais populares, e há pouco tempo os fãs receberam o desfecho da quarta temporada, com o anúncio de que a próxima será a última.

Ainda que a trama tenha deixado alguns pontos vagos e certas falhas no enredo, nós precisamos discutir sobre o desenvolvimento de um personagem: Will Byers, o garoto que desaparece na primeira temporada e possui uma conexão com o Mundo Invertido.

Entretanto, nas duas últimas temporadas Will tem passado por um processo de descobertas que parece inocente, mas não é. Como comunicólogo e escritor, vou te mostrar o porquê neste artigo.

Nesta leitura haverá spoilers, comentários sarcásticos e uma longa discussão. Vamos juntos?

Uma cidade (não tão) pacata

Stranger Things é uma série da Netflix produzida pelos irmãos Duffer, um suspense científico ambientado na pequena cidade de Hawkins, no estado de Indiana nos EUA, que se passa nos anos 1980. 

A história começa com um grupo de quatro crianças que parte em uma investigação pessoal quando um dos meninos, Will Byers, desaparece ao voltar para casa. Eles encontram uma menina com poderes telecinéticos, a misteriosa Eleven (“Onze” na versão brasileira), e uma criatura dimensional à solta na cidade, que eles chamam de Demogorgon.

Da esquerda para a direita: Lucas, Mike, Eleven (Onze) e Dustin.
Da esquerda para a direita: Lucas, Mike, Eleven (Onze) e Dustin.

Stranger Things constrói uma narrativa de experimentos científicos e dimensões paralelas com entidades predatórias, ao mesmo tempo que insere elementos da tecnologia e cultura pop dos anos 80, incluindo jogos de RPG. 

Como os garotos são um time de RPGistas, as criaturas de Stranger Things são nomeadas como personagens dos jogos. Até mesmo as estratégias de captura e derrota destas são inspiradas nas jogadas de Dungeons & Dragons.

O simpático Demogorgon.
O simpático Demogorgon.

Ao longo das quatro temporadas, a relação entre Hawkins e o Mundo Invertido se torna cada vez mais complexa, tendo o envolvimento dos governos Americano e Soviético na disputa, e mais recentemente, tivemos a revelação do grande vilão por trás de todo o conflito no seriado: o Vecna.

Vecna: uma companhia agradável para causar a aniquilação global.
Vecna: uma companhia agradável para causar a aniquilação global.

A quarta temporada foi lançada em 27 de maio e 01 de julho, dividida em duas partes: o Volume 1, contendo os episódios 01 ao 07, e o Volume 2, com os episódios 08 e 09. A quinta e última temporada foi confirmada pelos produtores, ainda sem data definida.

Agora que entendemos o contexto da série, vamos falar sobre Will Byers.

O garoto no Mundo Invertido

Will é um dos quatro meninos do grupo, que costumam jogar Dungeons & Dragons no porão de Mike Wheeler, o líder do bando, junto com Dustin Henderson e Lucas Sinclair. 

O episódio piloto aborda o desaparecimento de Will durante o retorno para casa, depois de passar a noite jogando RPG com os amigos. Os garotos, assim como a mãe e o irmão de Will, Joyce e Jonathan, começam a investigar seu paradeiro junto com o delegado Jim Hopper.

Will Byers, personagem de Noah Schnapp, no episódio piloto do seriado.
Will Byers, personagem de Noah Schnapp, no episódio piloto do seriado.

Com a aparição de Eleven e do Demogorgon, a criatura que surgiu em Hawkins e passou a atacar os cidadãos, eles descobrem que Will foi levado ao Mundo Invertido, uma dimensão paralela que apresenta uma Hawkins destruída. 

Na segunda temporada, Will cria uma conexão psíquica com o Devorador de Mentes, a entidade que lidera os monstros no Mundo Invertido, e é possuído por ele. Essa conexão permanece na terceira temporada e retorna no último episódio da quarta, com a revelação que o Devorador de Mentes foi criado pelo Vecna.

O Devorador de Mentes, na terceira temporada, matando Billy Hargrove dentro do Starcourt Mall.
O Devorador de Mentes, na terceira temporada, matando Billy Hargrove dentro do Starcourt Mall.

Eu disse que haveria spoilers.

Apesar da sugestão que Will será uma peça chave na última temporada, é inegável que o personagem de Noah Schnapp foi deixado de lado ao longo da trama, sendo reduzido a um papel não apenas tosco, como também problemático.

Will e a descoberta da sexualidade na adolescência

Na terceira temporada, Will se mostra um pouco deslocado do grupo, já que ele é o único sem um relacionamento amoroso e se incomoda com isso. A construção de Will causa dúvida se ele cresceu mais lentamente ou se sente frustrado por não compartilhar da mesma sexualidade que os amigos. 

E quando comparamos a trajetória do garoto, vemos algumas pistas de que, possivelmente, ele não é hétero. Na primeira temporada, Joyce diz que o filho é um “menino sensível” ao explicar seus trejeitos, ao passo que um grupo de garotos debocha do seu desaparecimento. “Ele deve estar no mundo das fadas”, eles dizem.

Na segunda temporada, há uma cena em que os meninos estão no baile da escola e Mike dança com Eleven, depois de tanto tempo separados. Will está dançando com uma garota, mas seu olhar foca apenas em Mike e Eleven.

Já na terceira temporada, depois de ver todos os amigos namorando, ele e Mike começam a brigar por causa da garota, e o Wheeler chegou a dizer ao Byers: “não é minha culpa se você não gosta de meninas”.

Na mais recente temporada, Will apresenta alguns comportamentos marcantes. No primeiro episódio, Will e Eleven devem apresentar um trabalho escolar sobre os seus heróis, e enquanto a garota escolhe Jim Hopper, seu pai adotivo, Byers elege Alan Turing: o pai da computação, condenado por ser homossexual.

Eleven e Will com seus projetos e cortes de cabelo duvidosos.
Eleven e Will com seus projetos e cortes de cabelo duvidosos.

Na sala de aula, uma garota da turma flerta com ele, que se esquiva da iniciativa. Depois, é dito que ele está fazendo uma pintura que não mostra para ninguém, e Eleven desconfia que ele pode estar gostando de uma menina

O garoto se frustra ao perceber que Mike só tem olhos para a namorada, e com a perseguição que sofrem pelos agentes do governo, ele acaba sendo o apoio emocional do amigo.

No penúltimo episódio, Will faz uma declaração indireta ao Mike, mostrando a pintura dos quatro jovens lutando contra um dragão, tendo o Wheeler na liderança. O personagem faz uma declaração sobre como ele é o coração da equipe, que Eleven sempre precisará dele e o amor que sente por Mike faz com que ela se sinta menos “estranha e errada”. 

Will olhando para a janela e chorando em silêncio.
Will olhando para a janela e chorando em silêncio.

Mike se sente melhor com o discurso, enquanto Will vira para o outro lado e chora em silêncio. Jonathan percebe isso, e no último episódio, conversa com o irmão mais novo. Ele oferece seu apoio incondicional e promete amá-lo, não importa o que aconteça.

Will e Jonathan se abraçando.
Will e Jonathan se abraçando.

Papo reto: essa foi a cena mais emocionante, necessária e visceral de todo o seriado.

Vale lembrar que, segundo o ator Noah Schnapp em uma recente entrevista à Variety, isso não estava no roteiro original. Foi sugerida pelo intérprete de Jonathan, Charlie Heaton, pela cena em que ele observa o irmão chorar escondido pelo retrovisor.

Jonathan vendo Will chorar pelo espelho retrovisor.
Jonathan vendo Will chorar pelo espelho retrovisor.

Essa construção toda deixa implícito que Will é apaixonado por Mike, ao ponto de Jonathan notar a dor do irmão e apoiá-lo, em uma das cenas mais emocionantes do Volume 2. Contudo, apesar de parecer claro, a sexualidade de Will não foi definida na história, deixando tudo para o imaginário coletivo dos fãs

E isso não foi feito à toa, muito pelo contrário: é um dos recursos narrativos mais comuns da indústria audiovisual, algo que nós devemos criticar.

A capitalização do sofrimento

Para quem assistiu Stranger Things desde a primeira temporada até o último volume, deixo uma pergunta: em quantas situações nas duas últimas temporadas a presença de Will Byers na trama foi essencial?

A única função dele na quarta fase foi apenas ser o apoio emocional, dando indícios que nutria uma paixão pelo amigo, e só. Seu sofrimento foi tão explorado que, no último episódio, quando Mike e Eleven se reencontram, Will é posicionado em segundo plano na cena, entre os dois namorados.

Eleven do lado esquerdo da tela, Mike ao lado direito, e a silhueta de Will no espaço entre eles, desfocado no segundo plano.
Eleven do lado esquerdo da tela, Mike ao lado direito, e a silhueta de Will no espaço entre eles, desfocado no segundo plano.

Essa cena em especial me deixou completamente revoltado.

Qual é a necessidade de retratar esse enquadramento, além de evidenciar o quão doloroso aquilo estava sendo para o garoto? Tudo foi construído para mostrar que ele teve o seu coração partido e gerar comoção do público.

Esse é um dos principais motivos pelo qual LGBTs que viveram sua descoberta nos anos 80 se conectaram tanto com o personagem, pois passaram exatamente por essa situação. Desta forma, acreditam que a personificação de seu trauma foi natural e verdadeiro para o contexto da época.

Bem, isso é um problema, pois os Duffer atrelam todo o desenvolvimento do personagem ao sofrimento causado pela sua sexualidade, e esse é um dos tropos mais comuns relacionados ao meio LGBTIA+.

Um tropo é um recurso narrativo que está sempre se repetindo nas histórias:

  • a pessoa que muda a aparência depois de um término;
  • o jovem que melhora seu caráter depois de um acidente;
  • a princesa indefesa salva pelo cavaleiro valente;
  • o policial que enfrenta o crime organizado para salvar a família;
  • entre outros.

Diferente do clichê, que é uma situação ruim ou absurda, o tropo pode até passar despercebido por ser apenas comum, e isso ajuda os produtores a conduzir sua narrativa. O que o torna bom ou ruim é a mensagem subliminar que ele passa.

Quantas histórias de homens gays não se formam em um contexto de violência, traição e sofrimento? Nós até estranhamos histórias em que dois homens se conhecem, se gostam e ficam juntos, como qualquer casal hétero, pois naturalizamos a ideia que ser LGBTIA+ significa estar em constante agonia.

Lembra que a cena entre Will e Jonathan não estava no roteiro? Muito provavelmente ela não existiria se os atores não sugerissem a ideia, percebendo sua importância. Os produtores, por outro lado, não pareceram interessados em uma abordagem mais humana para o personagem.

O único papel de Will na temporada foi sofrer pelo Mike. 

A conexão dele com o Mundo Invertido não foi explorada até o final do último episódio, ele não usou os seus conhecimentos de D&D ou do próprio Mundo Invertido, nem tomou a frente em nenhum dos momentos. Ele apenas ficou sofrendo e servindo de conselheiro amoroso para o garoto que ama em segredo. 

Se um personagem é construído apenas para vivenciar um contexto de trauma emocional, ele está sendo bem aproveitado e representado na história? Isso explica porque boa parte do público não gosta do personagem ou está incomodada com o desenvolvimento dele.

A identidade LGBTIA+ como estratégia publicitária

Ok, os Duffer estão se apropriando desse clichê relacionado ao sofrimento para retratar a sexualidade dos personagens, uma herança LGBTfóbica ainda muito comum na indústria cultural. No entanto, não podemos descartar o contexto publicitário da obra.

O público LGBTIA+ é bastante engajado, tanto que usamos o termo pink money (“dinheiro rosa”) para nos referir a essa fatia de mercado. 

Como as pessoas queer — quem não se encaixa nos padrões heterossexual cisgênero — têm buscado cada vez mais por produções que os representem, a indústria está se adaptando para conquistar esse público.

Mas nós ainda vivemos numa sociedade conservadora e preconceituosa. Produções como “Eternos”, “Lightyear”, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura” e “Thor: Amor e Trovão” foram boicotadas por haver cenas com representatividade LGBTIA+. O mercado cinematográfico sabe muito bem disso.

Phastos e seu marido se beijando em "Eternos".
Phastos e seu marido se beijando em “Eternos”.

Uma cena altamente nociva e criminosa em 69 países passando pela sua tela.

E qual é a grande solução? Vamos sugerir que algum personagem importante é LGBT, gerar campanhas massivas de divulgação, mas no produto final isso não aparece ou é colocado sem destaque, e assim ganham os dois públicos.

Vamos voltar ao contexto de Will Byers e Stranger Things. Como em momento algum ele admitiu os seus sentimentos, a produção pode arrastar isso até o final da última temporada, manter os fãs sedentos para saber quando ele vai se assumir, e no fim inventar outra desculpa para isso tudo não acontecer.

Algo no estilo “surpresa, ele não é gay, desculpe a confusão!”, que por sinal aparece em diversas obras. Acredito que não acontecerá no seriado, já que esse clichê costuma revoltar o público, mas se Will é definitivamente gay, por que não deixar isso explícito?

A resposta é simples: queerbaiting, a famosa isca gay. Ao não revelar a sexualidade do Will, a produção mantém o público interessado, ao mesmo tempo em que fica jogando iscas e promessas para manter a audiência. 

A Netflix sabe que representatividade traz dinheiro e que o público LGBTIA+ espera por protagonismo queer, então é uma forma fácil de ganhar engajamento da comunidade LGBT. Não é à toa que os Duffer disseram que teríamos respostas no Volume 1, reafirmaram as tais respostas para o Volume 2, e agora jogam para a quinta temporada.

O próprio ator do Will, Noah Schnapp, sempre foi muito esquivo sobre a sexualidade do personagem, e a cada temporada seu posicionamento oficial muda. De “pouco importa” a “não há nada definido” até “a beleza de não se definir”, mostra o quanto querem usar essa resposta como trunfo para manter a audiência. 

Algo que foi confirmado recentemente pelo Noah em uma entrevista para a Variety: Will é gay e se apaixonou por Mike. Entretanto, o produtor executivo Shawn Levy abafou a declaração logo em seguida. Segundo o roteiro original, Will é descrito como uma criança “com questões a respeito de sua identidade sexual”, e Levy já declarou que nada em Stranger Things é por acaso

Utilizar queerbaiting para retratar Will não foi coincidência, foi planejado para acontecer exatamente assim. Outros atores já falaram sobre, os produtores confirmaram, e mesmo assim tudo permanece fora da série. 

Por que não afirmar isso dentro dela?

A nossa vivência e identidade são usadas como recurso publicitário, aliado à ideia que, para ter representatividade LGBTIA+, é preciso haver sofrimento explícito. Como se fosse uma punição por botar um de nós no elenco.

O tal contexto histórico não tão fiel assim

Com certeza já chegamos no ponto em que alguém diz: “Gabriel, esse era o contexto da época! Você acha que se assumir gay nos anos 80 era fácil? Essa representação foi fiel e não há nada de mais nela!”.

De fato, a situação era comum nos anos 80, mas vale lembrar que Stranger Things não é um documentário, é uma ficção científica. Se foi possível haver poderes telecinéticos, dimensões paralelas e distorção da realidade, era possível abordar a questão do Will de formas bem melhores.

E se a representação histórica dos anos 80 fosse tão fiel como dizem, a história seria muito diferente. 

Personagens como Lucas e Erica jamais fariam parte do núcleo principal, talvez nem estudassem na mesma escola que os personagens ou andariam com eles, já que os EUA nos anos 80 ainda praticavam discriminação racial, mesmo que por lei não existisse mais.

Da esquerda para a direita: Erica, Dustin e Lucas.
Da esquerda para a direita: Erica, Dustin e Lucas.

A Ku Klux Klan atuou publicamente até o final dos anos 70 — existindo até hoje de forma anônima — incitando ódio contra pessoas não-brancas. Eventos como a Revolta de Liberty City em 1986 e os Distúrbios de Los Angeles em 1992 foram motivados pela violência institucional sobre negros e latinos, um cenário comum na época.

Apesar disso, Lucas e Erica não foram alvo de racismo na série, havendo até um relacionamento inter-racial entre Lucas e Max, proibido por lei nos EUA até 1967. A única exceção era o racismo implícito de Billy Hargrove sobre o relacionamento, que foi conduzido de forma mais suavizada na terceira temporada.

Max e Lucas dançando no baile.
Max e Lucas dançando no baile.

Outro contexto higienizado na série é a (falta de) misoginia, em especial envolvendo Nancy Wheeler e Robin Buckley. No episódio 4, elas vão até o sanatório onde o sobrevivente da mansão Creel está internado, se passando por estudantes de Psicologia, para interrogá-lo. 

Elas conseguiram a autorização do diretor para burlar toda a burocracia da instituição e visitar um detento de alta periculosidade, sozinhas em uma sala fechada com um homem, sem uma única cena de abuso sexual.

Robin do lado esquerdo e Nancy do lado direito, no setor de detentos de alta periculosidade. Podemos notar a ausência de decotes e coxas à mostra.
Robin do lado esquerdo e Nancy do lado direito, no setor de detentos de alta periculosidade. Podemos notar a ausência de decotes e coxas à mostra.

O diretor aceitou o pedido sem pedir favores sexuais em troca, assim como as garotas não precisaram de roupas provocantes nem usar da sua sensualidade para estarem à sós com Victor Creel. O fator misógino foi eliminado da trama, exceto pelo relacionamento de Nancy com seus chefes no jornal em que trabalhava, na terceira temporada.

Se levarmos em consideração que, nos EUA, as mulheres só conquistaram parcialmente o direito ao voto em 1920 e totalmente em 1965, e os avanços da 2ª onda feminista atingiram o país entre as décadas de 1960 e 1970, essa relação respeitosa jamais teria acontecido.

E isso foi bom, tanto para o movimento negro quanto para o movimento feminista. Pois ainda que o contexto social da época fosse racista e misógino, a trama conseguiu retratar essas problemáticas em segundo plano, para que os personagens pudessem ser inseridos na trama em pé de igualdade ao elenco branco masculino.

É cansativo ver nas obras de ficção personagens negros que só vivenciam racismo e mulheres sendo sempre abusadas. Nós não assistimos filmes e séries para nos distanciar da realidade? Então por que para essas pessoas a violência deve ser sempre realista e visceral?

Aliás, se o contexto histórico fosse tão importante, os Duffer retratariam os EUA como de fato eram na década de 1980: falidos pela Guerra Fria, com altas taxas de desemprego e instabilidade econômica. Em nada se parece com a pacata e próspera Hawkins, que só viu problemas financeiros quando construíram um shopping na cidade, tirando movimento do centro comercial.

Com tanta gente morrendo e sendo atacada por criaturas dimensionais, a taxa de hospitalização e acionamento de ambulâncias é muito alta. Mesmo assim, não vemos um único personagem endividado pelas despesas médicas, algo que é comum nos EUA até hoje. 

Não devia ser fiel ao contexto da época? Portanto, qual é a desculpa para que o roteiro sobre Will não fosse mais inclusivo, além de pura estratégia midiática?

O contraste entre Will, Robin e o núcleo principal

Outro ponto muito pertinente para entender a construção homofóbica sobre Will é o compararmos com Robin Buckley, personagem que passou a integrar o núcleo principal nessa última temporada.

Da esquerda para a direita: Robin, Steve e Dustin.
Da esquerda para a direita: Robin, Steve e Dustin.

Ela foi introduzida na terceira temporada, como colega de trabalho de Steve Harrington. Ao longo dos episódios, foi sugerida a possibilidade de um romance entre eles, até que ela revela gostar de garotas no final da temporada.

Steve e Robin se tornam grandes amigos, alguém com quem a garota pode desabafar sobre os seus dilemas amorosos e sua preocupação sobre como viver em uma cidade pequena. E o Harrington não só a apoia emocionalmente como também ajuda Robin a se declarar para Vickie, a garota que está apaixonada.

Robin e Vickie entre os membros da banda, estando Robin olhando fixamente para Vickie.
Robin e Vickie entre os membros da banda, estando Robin olhando fixamente para Vickie.

Ao contrário de Will, Robin possui o entendimento sobre a sua sexualidade, amigos com quem pode se abrir e um desfecho favorável, na cena em que Robin e Vickie estão montando sanduíches para os sobreviventes e demonstram aquele constrangimento ao estar ao lado de quem gostam.

Vickie e Robin preparando sanduíches e rindo.
Vickie e Robin preparando sanduíches e rindo.

Assim como Will, Robin também passou por uma cena de desilusão amorosa: ela vê Vickie beijando um rapaz na loja de armas e o casal enxerga a expressão magoada de Robin. E quando ela foge, a câmera foca em Vickie a forma como ela se sentiu incomodada por ter feito aquilo. 

Uma tragédia em três atos: Vickie sorrindo para o rapaz, de perfil, depois sorrindo em meio-perfil ao receber dele um beijo na bochecha, e enfim com uma expressão chateada de frente para a câmera.
Uma tragédia em três atos: Vickie sorrindo para o rapaz, de perfil, depois sorrindo em meio-perfil ao receber dele um beijo na bochecha, e enfim com uma expressão chateada de frente para a câmera.

Além disso, ao contrário de Will, Robin é colocada em primeiro plano e sua reação interage com a cena, enquanto ele foi apenas um mero elemento figurativo do cenário.

Robin ao fundo com uma expressão magoada entre Vickie e o homem prestes a se beijar no primeiro plano, com seus rostos desfocados.
Robin ao fundo com uma expressão magoada entre Vickie e o homem prestes a se beijar no primeiro plano, com seus rostos desfocados.

Quando comparamos a trajetória de Will e Robin, vemos que os produtores seguem caminhos totalmente opostos. Robin se compreende, se aceita, é acolhida e é permitido a ela expressar suas emoções. A ele, nada disso.

Faz sentido pensar que Robin, apesar de ter sido integrada ao elenco central, não tem a trama do seriado rodando em torno de si, o que acontece com Will e Eleven. E entre os dois, apenas Will passa por essa invisibilização da sua sexualidade.

Porque falar em sexualidade, para muitos, significa um contexto LGBTIA+, mas não é. Isso também envolve as relações heteroafetivas. Basta notar que todos os protagonistas possuem relacionamentos amorosos e essas relações fazem parte do enredo:

  • Mike e Eleven;
  • Lucas e Max;
  • Dustin e Suzie;
  • Hopper e Joyce;
  • Steve, Nancy e Jonathan.

Em relação ao último, existe todo um triângulo amoroso que se estende desde a primeira temporada. Nancy estava com Steve, depois ficou com Jonathan, tinham um namoro sério, ela voltou a se envolver com Steve, e no final do Volume 2 começou a se resolver com Jonathan.

Robin tem a possibilidade de construir sua relação com Vickie, Lucas precisa lidar com o fato de Max estar em coma, Mike e Eleven voltam a confiar um no outro, Suzie se encrencou para ajudar Dustin e os amigos, Joyce e Hopper finalmente estão juntos… E Will?

Hopper e Joyce se beijando dentro do presídio soviético.
Hopper e Joyce se beijando dentro do presídio soviético.

Faz sentido que ele seja o único personagem em um conflito sentimental, escondendo sua sexualidade, enquanto todos os outros não precisam passar por isso nem ter seu roteiro baseado unicamente nessa ideia?

Para os que acreditam que um relacionamento entre rapazes, ou o simples entendimento de Will sobre a própria sexualidade, seja uma deturpação, lembrem-se que Mike e Eleven deram seu primeiro beijo quando ainda eram crianças, na temporada inicial. 

Mike e Eleven se beijando na primeira temporada. Eles tinham 13 e 12 anos, respectivamente.
Mike e Eleven se beijando na primeira temporada. Eles tinham 13 e 12 anos, respectivamente.

Isso não soou depravado, mas Will ser gay sim. 

Como poderiam ter retratado Will de forma digna?

Fizemos um apanhado gigantesco sobre a construção narrativa de Will Byers, como a sexualidade dele foi retratada — intencionalmente — com base em estereótipos preconceituosos, o contexto social dos EUA nos anos 80 e também comparamos com os demais personagens. 

Agora fica a pergunta: como a história do Will poderia ter sido?

Vamos considerar que Will está em um processo de aceitação e Mike é hétero. Logo, um relacionamento afetivo entre eles não faz sentido para a trama.

Assim como Robin, Will tem um porto seguro para desabafar e expressar sua sexualidade: Jonathan e Joyce. O irmão mais velho deixou claro que ama Will acima de tudo — mais uma vez quero evidenciar o quanto essa cena foi absolutamente necessária e certeira para a trama — e sua mãe está inclinada a aceitá-lo e apoiá-lo depois de tudo o que passaram.

Afinal, seu filho é sequestrado, levado para outra dimensão e possuído por uma entidade maligna, e depois disso tudo ela pensaria que esse filho ser gay é uma aberração? Normal é ter uma enteada telecinética fruto de experimentos científicos, pelo visto.

Joyce não estava presente na temporada, mas Jonathan sim. Os irmãos poderiam falar sobre isso, Jonathan poderia aconselhar e acolher Will ao invés de passar nove episódios fumando maconha.

Argyle também poderia ter sido usado para este propósito. Já que o personagem foi inserido somente como ponto de apoio da trama, por que não ser ligado ao Will, ao invés de ao Jonathan? Ser a pessoa com quem Will se abre sobre sua sexualidade, os dois dividindo experiências, e Argyle mostrando ao adolescente que está tudo bem gostar de garotos.

Da esquerda para a direita: Will, Jonathan, Mike e Argyle. Todos agachados em meio ao deserto do Arizona.
Da esquerda para a direita: Will, Jonathan, Mike e Argyle. Todos agachados em meio ao deserto do Arizona.

Os dois poderiam até mesmo se envolver romanticamente, afinal, todos os personagens hétero arrumam namoros. Por que não?

Nesses contextos estamos considerando que Will não se revela ao Mike, mas ele poderia ter feito isso no Volume 2. Na cena da van, antes de resgatarem Eleven, ou ainda quando ela estivesse se preparando para a luta com o Vecna. 

Não é necessário um beijo ou um momento romântico, apenas uma declaração sincera, como “sei que você gosta de garotas, mas eu amo você e não posso ignorar isso”. Já seria mais digno do que todo o papelão que ele passou nesta temporada.

E caso fossem seguir com a trama de Will escondendo isso de todo mundo, não teria problema algum haver uma cena em que, estando sozinho, ele reflete sobre os seus sentimentos e sexualidade. Um “será que eu gosto de garotos?” seria o bastante para dar um rumo saudável à sua narrativa.

Representar personagens LGBTIA+ não precisa — e nem deve — se ater aos enredos problemáticos. Um exemplo PERFEITO de como conduzir uma história sobre relacionamentos homoafetivos e a descoberta da própria sexualidade é a série Heartstopper, disponível também na Netflix.

Elenco principal de Heartstopper com os três casais juntos tomando milkshakes. Da esquerda para a direita: Darcy e Tara, Charlie e Nick, Tao e Elle.
Elenco principal de Heartstopper com os três casais juntos tomando milkshakes. Da esquerda para a direita: Darcy e Tara, Charlie e Nick, Tao e Elle.

Felizes e boiolas. Viu? Não é difícil.

Sexualidade não deve ser estratégia de marketing

Vamos sintetizar a discussão em apenas um ponto: a sexualidade de Will e a maneira que ela é usada como recurso midiático. 

Quando esconderam a origem do Vecna, a relação de Will com o Mundo Invertido e o passado entre Eleven e Henry, faz sentido como elemento narrativo que prende a atenção do público ao longo do programa.

Entretanto, ao fazer isso com a identidade LGBTIA+ de Will, só mostra o quanto querem capitalizar algo que faz parte da sua essência e que não deveria ser uma estratégia de marketing

Tanto que a produção do seriado ainda mantém a sexualidade de Byers em segredo, até mesmo do próprio ator.

Seria como narrar cinco temporadas inteiras escondendo o grande mistério de Hawkins, dando pequenas pistas ao longo da história para engajar os fãs, e então revelá-lo no episódio final da série: Lucas é um garoto negro.

Lucas te encarando com uma expressão séria.
Lucas te encarando com uma expressão séria.

Se eu não tivesse contado, você não perceberia.

Parece ridículo um detalhe tão simples e particular ser usado como manobra de enredo para ganhar audiência, certo? Então por que achamos normal que a sexualidade e a identidade de gênero de alguém seja retratada assim?

Como ainda teremos uma última temporada, e a produção já confirmou que Will será o destaque, acreditamos que a trama dele enfim terá um desfecho, ainda que tudo aponte para o queerbaiting. 

Uma aposta pessoal é que a sexualidade dele, se for definida, acontecerá no último episódio, com grandes chances que ele morra no final. Este é outro clichê muito comum e problemático, mas falaremos disso em outra oportunidade.

O que fica deste artigo é o entendimento que não é coerente defender a causa LGBTIA+ nas redes sociais se as produções literárias e audiovisuais continuam jogando os personagens queer em um limbo, guiados pelos velhos preconceitos de como pessoas LGBT precisam se manter escondidas.

Fica o convite aos Duffer e à Netflix: ao invés de fazer postagens no Mês do Orgulho, comecem a retratar personagens LGBTIA+ de forma digna no seu seriado. Deixem o Will compreender e aceitar a sua sexualidade igual a todos os demais personagens, e não apenas no último episódio bem rápido só para “agradar” o público queer.

Nós nos agradamos com representatividade real e saudável, coisa que não fizeram com Will Byers em Stranger Things. Ouso dizer que é por isso que lançaram o Volume 2 apenas em julho, por saber o impacto desse desfecho imbecil em pleno Mês do Orgulho LGBTIA+. 

Se não seria bem visto pela exposição midiática presente em junho, podemos afirmar que a produção sabe exatamente o que e porque está fazendo.

Um abraço, e a gente se lê por aí.

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