O que as orientações da OMS para Monkeypox nos ensinam sobre comunicação em saúde?

Hoje é o Dia Nacional da Saúde aqui no Brasil, e para aproveitar o dia, vamos aprender com a OMS como NÃO fazer uma declaração sanitária sobre uma doença.

No caso, me refiro à Monkeypox, também chamada de “Varíola dos Macacos”, em estado de surto em vários países, inclusive no Brasil.

Situações como essa exigem que a Organização Mundial de Saúde (OMS) se pronuncie sobre as descobertas científicas e passe orientações sanitárias para a população. Algo que aconteceu no dia 27 de julho por meio do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom.

Contudo, a abordagem da organização foi desastrosa. O Dr. Tedros afirmou publicamente que, neste momento, homens que fazem sexo com homens devem diminuir seus parceiros e atividades sexuais.

O problema é que a monkeypox não é uma doença sexualmente transmissível, e sim pelo contato com fluidos corporais. E, definitivamente, não é causada pelos homens LGBTIA+.

Essa recomendação veio de um estudo britânico, feito pela UK Health Security Agency (UKHSA), que mapeou os casos da varíola dos macacos no Reino Unido. Dos 152 homens que participaram das entrevistas, 151 se afirmaram gays, bissexuais ou que tiveram sexo com outros homens.

Olhando esse dado, dá a entender que a Monkeypox atinge apenas homens LGBTIA+, certo? Entretanto, a pesquisa mostra que, na Inglaterra, 311 homens tiveram casos confirmados da doença, e destes, apenas 152 aceitaram participar de questionários mais detalhados.

Ou seja: de 311 homens que desenvolveram a varíola, 160 não forneceram dados para ajudar no rastreio, e dos 151 que o fizeram, todos se consideram LGBTIA+ ou fizeram sexo com outros homens. Pouco menos da metade da amostra.

Em termos científicos, isto é um viés: uma afirmação que pode induzir ao erro. Quando a OMS se posiciona dizendo que os homens LGBT estão mais sujeitos a contrair a doença, não se leva em consideração que temos 159 homens com informações desconhecidas sobre sua sexualidade e atividade sexual. 

E se todos forem heterossexuais que não fizeram sexo com outros homens? É uma mudança muito grande no entendimento e enfrentamento da doença.

É por isso que na Saúde falamos em comportamento de risco ao invés de grupos de risco, pois na maior parte das patologias transmissíveis, a disseminação ocorre por ações, e não por pessoas específicas. 

A UKHSA entrevistou mais uma vez os participantes, para buscar mais informações sobre 82 casos suspeitos de homens que fizeram sexo com outros homens. Destes, apenas 45 participaram e todos se identificaram como gays (40), bissexuais (4) e outros (1).

Foram encontrados os seguintes dados adicionais:

  • 44% fizeram sexo com mais de 10 pessoas;
  • 44% realizaram sexo grupal;
  • 30% fizeram sexo fora da sua cidade de origem;
  • 20% tiveram contato sexual fora da Inglaterra;
  • 24% se relacionaram sexualmente com homens que não moram na Inglaterra;
  • 44% frequentam locais de sexo, como saunas, boates e clubes de sexo;
  • 36% não frequentaram nenhum destes locais nem eventos de sexo;
  • 64% usaram aplicativos de relacionamento.

Quantas pessoas além dos homens LGBTIA+ realizam ao menos um dos tópicos dessa lista? Todas elas apresentam maior risco de se infectar com a doença, porque todas apresentam comportamentos que favorecem a infecção.

Entende agora a diferença entre comportamento de risco e grupo de risco?

A própria pesquisa admite que os dados não representam o comportamento de todas as pessoas infectadas, já que os candidatos que realizaram a segunda entrevista representam apenas 30% dos primeiros entrevistados e 13% dos casos gerais no Reino Unido.

Sendo assim, quando a OMS se posiciona colocando homens LGBT em evidência, e construindo uma narrativa que leva ao entendimento que a varíola dos macacos está atrelada a essa população, está causando a estigmatização desse grupo e ainda por cima colaborando para a disseminação de notícias falsas. 

Além disso, pode indiretamente ajudar no aumento dos casos. Basta pensar que, ao noticiar a doença como algo voltado aos homens LGBT, pessoas fora desse grupo podem acreditar que estão seguros e manter os comportamentos de risco da doença.

A longo prazo, os números de infecções podem aumentar e os homens LGBTIA+ continuam vistos como responsáveis pela disseminação. Com isso, a Monkeypox acaba se tornando a nova “peste gay”, erroneamente.

Isso já aconteceu nos anos 80 com a AIDS, em que governos, instituições sanitárias e até mesmo a Igreja associavam o avanço da doença com os homens gays e bissexuais, impondo a este grupo uma culpa que não existia. Isso expôs a comunidade LGBTIA+ a mais violência e ainda por cima não ajudou em nada a conter a disseminação do HIV.

Sendo assim, o que poderia ter sido feito? 

Um discurso que evidenciasse os comportamentos de risco a serem evitados, orientando a população sobre a transmissão da doença, e depois pontuar que os homens LGBT estão mais vulneráveis à infecção, e por isso devem redobrar os cuidados. Dessa forma, o foco da transmissão permanece nas situações de risco, não nas pessoas que podem se contaminar.

Parafraseando Salvador Campos Corrêa, ativista no campo da AIDS: “o vírus atinge corpos, não grupos”. Recomendo fortemente o vídeo que ele postou no seu Instagram no último dia 29 em relação ao estigma criado pela OMS nos homens LGBTIA+.

Outros profissionais que se posicionaram sobre o assunto e vale a pena acompanhar são os médicos infectologistas Rico Vasconcelos (@ricovasconcelos) e Vinícius Borges (@doutormaravilha) e a jornalista de saúde Mariana Varella (@marifvarella).

Um abraço, e a gente se lê por aí.

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