O brigadeiro que se tornou abuso infantil graças a um mau-entendido no Twitter

Era uma tarde ensolarada de sábado, no dia 26/03/2022, o Lollapalooza acontecia normalmente em São Paulo, tudo estava correndo bem. E sendo um dia normal, pessoas normais falam sobre coisas normais em suas redes sociais.

Foi o caso do , nosso protagonista, que fez o seguinte post no Twitter:

Tweet: Acabei de oferecer brigadeiro escondido pra uma criança de 4 anos e ela não só negou como me dedurou pra mãe

Um comentário engraçado e despretensioso, certo? Bem, nunca estivemos tão errados, pois logo em seguida, uma enxurrada de comentários atingiu o post, de pessoas acusando o nosso protagonista de promover abuso infantil.

Entre as diversas mensagens recebidas, muitos usuários disseram que era horrível pedir segredo dos pais, pois isso se configurava como uma tática de abusadores e pedófilos, apontaram a irresponsabilidade em oferecer doces sem saber se a criança era alérgica ou possuía restrição alimentar, criticaram até mesmo a necessidade em passar por cima dos pais e se intrometer na alimentação da criança.

Até o momento da produção deste artigo, o tweet conta com 1870 comentários, 13,5 mil compartilhamentos e 187,7 mil curtidas, para entender a dimensão do problema, que foi apelidado de “Brigadeirogate”.

Parece loucura, certo? E fica pior quando inserimos nossa segunda protagonista dessa história, a Thais, que trouxe uma informação bombástica: Zó é tio da criança, que fazia aniversário naquele dia. A festa e os brigadeiros eram dela.

Tweet: Isso não existiu hahahahahah no caso a mãe é a MINHA mãe, a criança é a minha irmã e o cara é meu namorado. A minha mãe tava DO LADO, o escondido foi só porque ele ofereceu só pra ela, a minha irmã caguetou e a minha mãe chamou ela de chata e comeu o brigadeiro no lugar dela

Ou seja, ele ofereceu para a criança um doce feito pela própria mãe da aniversariante, para a mesma criança, que só recusou porque não quis bagunçar a mesa, contou para a mãe e virou piada na família.

Com isso já devia fazer o pessoal cair em si e parar com essa história, mas é a partir daí que começa o capítulo mais interessante: as pessoas começaram a justificar que o Zó era culpado por não explicar todo o contexto e, pasmem, que ainda assim o que ele tinha feito era abuso.

E não para por aí, houve uma avalanche de desinformação, de pessoas com más intenções, afirmando que a Thais não sabia o que estava acontecendo, que a mãe brigou com o Zó pelo que fez com a filha, e inventando mil e uma desculpas ao invés de assumir a falha.

Chegou ao ponto de perfis grandes no Twitter compartilharem o caso com as suas impressões errôneas, alguns sem saber o que estava acontecendo e outros até sabendo, porque o interesse já era pegar o bonde andando e garantir o engajamento.

Obviamente isso saiu de controle, ao ponto do Zó dizer que aquela discussão chegou no trabalho dele.

Tweet: mandaram o tweet do brigadeiro no slack da firma, é capaz de amanhã eu ter que me explicar pra não perder o emprego

A sorte é que foi uma situação simples e fácil de explicar, mas imagina o estrago que essa baderna poderia ter causado, sendo que tudo seria resolvido caso alguém perguntasse o que aconteceu antes de espalhar sem saber?

Esse episódio foi um show de horrores, e infelizmente resume bem como as pessoas estão agindo nas redes sociais. Muitos querem julgar e condenar realidades sem nem mesmo conhecer os fatos, e quando apontam a falha, se esquivam e arrumam desculpas para fingir que estão certas.

Gente chamando o cara de abusador, pedófilo, traficante, ameaçando bater nele, e quando viram a situação, culpam o Zó por não ter explicado toda a história para eles. Sendo que, na verdade, não era pra nenhum dos que vieram se exibir nos comentários.

Até rolou comentários de conscientização, mas baseados numa suposta agressão à criança, e ao notar que não foi tudo aquilo, cobram “empatia” das pessoas por mostrarem que o seu moralismo foi equivocado.

Pergunte quantos desses usuários raivosos se retrataram ou apagaram os comentários depois de saber que estavam errados? Pois é.

Eu falei sobre desinformação aqui no blog um tempo atrás, sobre o perigo de pessoas saírem compartilhando notícias falsas sem checar o fato primeiro. Muitas das pessoas que eventualmente odeiam quando influenciadores fazem isso, em situações como essa agem da mesma forma e ainda se enxergam como corretas.

É preciso agir na raiz disso, usando o bom senso. As informações te deixam com dúvida? Basta perguntar e se informar antes de sair compartilhando. E caso perceba que passou pra frente algo que não aconteceu, tenha a decência de apagar a publicação e se retratar.

Vale a pena cultivar o seguinte pensamento: nem tudo que é dito na internet é sobre mim. Aliás, bem pouco é sobre mim, vale a pena não me meter nisso.

Para encerrar o caso, tanto o Zó quanto a criança estão bem, nenhum aniversariante foi desrespeitado, abusado ou envenenado no decorrer da história. Apenas a noção foi gravemente ferida pelos internautas.

E apesar do desconforto, tivemos o privilégio de ver a seguinte resposta para uma das usuárias pretensiosas que continuavam mentindo sobre o ocorrido:

Tweet: IÓ, IÓ, IÓOOOO
Falando na sua língua pra ver se você me entende

Um abraço, e a gente se lê por aí.