Elon Musk comprou o Twitter, e agora?

O mês de abril foi agitado para os acionistas do Twitter. No dia 04, descobrimos que Elon Musk comprou 9,2% das ações do site e se tornou o maior sócio da rede. No dia 14, ele fez uma proposta de comprar toda a empresa, e nesta segunda, dia 25, ele comprou.

A princípio, isso pode parecer uma notícia banal, já que grandes empresários compram empresas todos os dias, mas esta não é uma situação comum, pois estamos falando do homem mais rico do mundo e de uma das maiores redes sociais da atualidade.

Quais foram os motivos que levaram a essa decisão, como os acionistas reagiram e o que podemos esperar da aquisição? Vem comigo que eu te conto!

Quem é Elon Musk?

Para começar essa história, é preciso entender o nosso protagonista, um grande empresário ligado ao setor tecnológico, dono das empresas Tesla, de carros elétricos, e SpaceX, de exploração espacial.

De acordo com a revista Forbes deste mês, Musk foi consagrado como o homem mais rico do mundo, tendo sua fortuna avaliada em 219 bilhões de dólares. Ele passou oficialmente Jeff Bezos, dono da Amazon, que liderava a lista há quatro anos.

Além disso, há um fato importante sobre o nosso empresário: ele é um twitteiro raiz. Possui conta no site desde 2009, e nos últimos anos se tornou bastante ativo na rede, até mesmo polêmico.

Desde chamar Vladimir Putin para um duelo até ser processado por difamação, a passagem do magnata na rede social não foi nada anônima, tendo em vista que ele não se importa em falar o que pensa no seu perfil.

E esse comportamento se tornou uma enquete no próprio Twitter, em que ele pergunta aos seus seguidores: “A liberdade de expressão é essencial para uma democracia em funcionamento. Você acredita que o Twitter adere rigorosamente a esse princípio?”.

Dos 2.035.924 votos, 70,4% responderam que não. Isso leva a um dos grandes questionamentos de Musk sobre o aplicativo.

Twitter e a liberdade de expressão

A principal crítica do empresário é que o Twitter não respeita a liberdade de expressão dos seus usuários, e portanto, atenta contra a democracia. O banimento do ex-presidente Donald Trump no ano passado, por exemplo, foi criticado por Musk na época.

Ele afirma que a rede monetizar anúncios é uma forma de se manter preso ao que as grandes corporações querem que a rede divulgue, e por isso propôs o fim dos anúncios, tal qual o fim do algoritmo e abrir o código-fonte do site.

Não é a primeira vez que usuários criticam a atuação do Twitter sobre a legalidade das informações. Em janeiro deste ano, a hashtag #TwitterApoiaFakeNews entrou nos tópicos mais comentados devido à falta de um sistema para denunciar notícias falsas no Brasil, que já existia em outros países.

Além disso, a plataforma já foi acusada de verificar perfis que propagam desinformação e proteger estes usuários de ações regulatórias. Vale lembrar que o Twitter anunciou uma série de medidas para combater fake news durante as eleições gerais deste ano.

O preço e as consequências da suposta liberdade

O empresário tem sido um defensor fervoroso da liberdade de expressão, o que foi apontado como a sua grande motivação para adquirir o controle do Twitter. Por outro lado, o magnata foi convidado a fazer parte do conselho administrativo da empresa, e ter poder de decisão, mas recusou.

Em resposta, o Twitter adotou uma estratégia chamada “poison pill”, a pílula venenosa, para impedir os planos de Musk. Essa jogada oferece descontos nas ações aos demais acionistas para incentivá-los a defender sua posição no quadro corporativo, tendo em vista que consideram a investida de Musk hostil.

Como não foi efetivo frente ao impulso do magnata, o Twitter foi vendido por 44 bilhões de dólares e se tornou uma empresa de capital fechado, controlada apenas por Elon Musk.

Dentre as suas propostas, ele defende alguns pontos solicitados há anos por usuários, como a opção de editar tweets, mostrando que ele realmente ouve as demandas internas. Sugeriu também a autenticação de humanos, o que pode diminuir a procedência de bots na plataforma.

Bots são robôs ou contas falsas, usadas para objetivos específicos de apoio ou desmobilização, um problema sério das redes sociais. Caso a proposta entre em vigor, pode ser muito positiva ao Twitter.

Aliado ao fato de abrir o algoritmo para os internautas, mostrando como a rede seleciona e entrega o conteúdo, tem grandes chances de revolucionar as mídias sociais. Assim teremos plena consciência de como o conteúdo chega às nossas redes e de outras pessoas, suprimindo a dependência dos algoritmos.

Contudo, sua proposta de reduzir a moderação de conteúdo é um tanto nebulosa. Em tese, todo usuário terá o poder de controlar o que chega até o seu perfil, mas também o de criar as suas próprias redes de distribuição de conteúdo.

Isso significa que cada pessoa pode transformar seu perfil em um veículo de comunicação, em que o único filtro para averiguar a veracidade das informações é a sua vontade pessoal. A moderação de conteúdo é feita por pessoas, e portanto, está sujeita às ideologias dominantes do grupo.

Isso acontece no Mastodon e Telegram, redes sociais conhecidas pela permissividade ao neonazismo, intolerância religiosa e racial, discursos de ódio, negacionismo científico e até mesmo pornografia infantil.

Qual a chance de também vermos isso no Twitter?

Liberdade só para alguns

Como foi dito, Elon Musk recebeu o convite de integrar o quadro administrativo da rede social ao se tornar sócio majoritário do Twitter, e recusou. Ele poderia dar vazão às suas ideias, mas preferiu tomar o Twitter inteiramente para si por acreditar que o quadro executivo “não faria as mudanças necessárias”. 

Seria uma forma de ferir a liberdade de expressão dos acionistas? Ou será que Elon Musk só é capaz de provocar mudanças benéficas quando possui controle absoluto?

O magnata tem ideais complexos sobre o assunto. Em relação ao banimento de Donald Trump, Musk sugeriu que a decisão foi autocrática e injusta, ainda que o ex-presidente tenha sido banido da plataforma por ferir os termos de uso, incitando seus apoiadores a invadir o Capitólio, e isso causou a morte de pessoas no evento.

Com a mais recente aquisição, Musk disse cogitar a ideia de remover o banimento de Trump, e com isso abre um precedente perigoso: se eu concordar com você, as regras são outras. Justamente o que ele critica sobre a plataforma.

Já em 2020, no contexto das eleições na Bolívia, Elon Musk declarou em seu perfil no Twitter, ao ser questionado sobre a intervenção dos EUA contra Evo Morales: “Nós vamos dar golpe em quem quisermos, lide com isso”.

Dizer isso em uma situação de um possível golpe de estado, causado por outro país com interesses comerciais e um sério histórico de intervenções nada democrático, é bastante complexo. Tanto que a postagem foi apagada do seu perfil.

Além disso, o empresário já foi multado pela Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, a SEC, por uma jogada na Tesla dentro do Twitter. Ao dizer que fecharia as ações da empresa na Bolsa por 420 dólares, ele gerou um movimento massivo de investidores e aumentou o valor das ações em 10,98%.

Como as promessas de Elon Musk não foram cumpridas, a justiça estadunidense entendeu que o empresário cometeu fraude, enganando os investidores e usuários, para valorizar a própria empresa.

Isso gerou uma multa de 20 milhões de dólares e a saída do seu cargo de presidente da Tesla, tal qual o impedimento que o magnata fizesse parte do quadro administrativo de outras empresas de capital aberto. 

Lembra que o Twitter era uma empresa de capital aberto, e que Musk se recusou a fazer parte da administração, preferindo comprar a empresa e torná-la de capital fechado?

Se essa é a visão do mais novo e único dono do Twitter, podemos imaginar o que vai acontecer com a plataforma. Todos os comportamentos dele apontam para uma gestão autocrática e polarizada, o que pode transformar a rede em um ambiente ainda mais tóxico e prejudicial à democracia que Musk tanto defende.

É hora de abandonar o barco?

Desde o anúncio da aquisição, o assunto viralizou na rede, ao ponto de hashtags como #AdeusTwitter e #RIPTwitter alcançar os trending topics, e como twitteiro e comunicólogo, o que eu gostaria de dizer nesse momento é: calma.

A compra ainda não foi oficializada, e mesmo que seja, tudo que foi abordado neste artigo são possibilidades, logo, não necessariamente serão efetivadas.

O Twitter se tornou uma grande rede de distribuição de conteúdo e informação, é notória a sua influência na formação de opinião e notícias. Muito do que é discutido em outras redes sociais vêm do Twitter, tendo em vista que seu objetivo é democratizar a informação em tempo real.

Contudo, não é inteligente abandonar uma rede social simplesmente porque você não tem apreço pelo corpo administrativo. Sem contar que, caso essas previsões se concretizem, esse é o momento de firmarmos nosso espaço no Twitter para oferecer um contraponto à polarização de conteúdo.

Já passou da hora do coletivo de usuários parar de fugir de rede em rede ao invés de afirmar o seu lugar. Até lá, o Twitter continua sendo uma das plataformas mais influentes e com potencial consolidado, aproveite a oportunidade para se fortalecer na rede e explorar ao máximo sua funcionalidade.

Por fim, quero dedicar esse artigo ao meu amigo John. Se não fosse pela sua insistência irritante, não teria me dedicado tanto a esse artigo. Amo você!

Um abraço, e a gente se lê por aí.

Referências

O iFood usa o marketing para sabotar seus entregadores e coagir clientes

Se você acompanhou as redes sociais nesta semana, pode ter visto um grande escândalo envolvendo o iFood: foi apontado que o aplicativo realizou estratégias de marketing com agências de publicidade para sabotar as reivindicações dos seus próprios entregadores.

A denúncia foi feita pela Agência Pública, uma organização de jornalismo independente, no dia 04/04/2022. A reportagem mostra que o iFood contrata as agências para se infiltrar nos movimentos de entregadores e minar o seu alcance.

Foram criadas páginas no Facebook, como a Não Breca Meu Trampo e a Garfo na Caveira, bem como perfis falsos nas redes sociais, visando se passar por entregadores.

Captura de tela da página “Não Breca Meu Trampo” no dia 09/04/2022.
Captura de tela da página “Não Breca Meu Trampo” no dia 09/04/2022.

Essas páginas e perfis observaram o comportamento, linguagem e pautas da classe e passaram a compartilhar postagens em apoio, ganhando atenção e identificação dos motoqueiros, e também da população. 

Em seguida, eram acionadas conforme o movimento que lutava por melhores condições de trabalho ganhavam força. Um grande exemplo foi o Breque dos Apps, que se iniciou em julho de 2020 e vinha ganhando força desde então.

Dessa forma, o público acreditava que os entregadores não compactuavam com as manifestações, quando na verdade, essas mesmas páginas eram administradas e patrocinadas pela própria empresa.

Imagem da manifestação “Breque dos Apps”. Fonte: vos.social/voos-literarios/breque-dos-apps-o-espirito-da-revolta
Imagem da manifestação “Breque dos Apps”. Fonte: vos.social/voos-literarios/breque-dos-apps-o-espirito-da-revolta

Uma tática da operação foi identificar que a vacinação prioritária era um ponto importante para a classe, e assim passaram a defendê-la dentro de manifestações trabalhistas, online e offline.

Ou seja: aproveitar o movimento que reivindicava condições dignas de trabalho para lançar outra pauta, ganhando atenção da mídia e população, e com isso ofuscar a causa inicial para que a verdadeira manifestação perca força.

Vários perfis falsos foram usados nessa empreitada, e segundo a reportagem, se trata de uma estratégia comum na política. Chamada Astroturfing, a ideia é gerar uma operação nas redes sociais que pareça surgir espontaneamente do público, quando na verdade é organizado por publicitários a mando de uma oposição.

Isso cria uma desconfiança generalizada sobre tudo que consumimos e a forma como as informações chegam até nós. Será que todo comentário nas redes sociais contrário aos movimentos sindicais e de coletivos representa a realidade ou foi criado por marqueteiros para fortalecer ainda mais a imagem de grandes empresas?

Vale ressaltar que a Garfo na Caveira, uma página bastante ativa, fez sua última postagem no mesmo dia em que a reportagem da Agência Pública foi ao ar.

Captura de tela da página “Garfo Na Caveira” no dia 09/04/2022.
Captura de tela da página “Garfo Na Caveira” no dia 09/04/2022.

Infelizmente, essa não é a primeira vez que o iFood apresenta movimentações de marketing para mascarar suas falhas. Segundo informações do Money Times e do Intercept Brasil, o aplicativo tem perseguido usuários que avaliaram o serviço negativamente no Reclame Aqui e oferecendo cupons de desconto em troca de boas avaliações.

A narrativa foi confirmada por diversos usuários no Twitter, alegando receberem os tais cupons pouco tempo após reclamar do serviço na rede. Outros receberam mensagens e e-mails de funcionários do aplicativo pedindo para que o seu atendimento fosse bem avaliado.

O Reclame Aqui é um dos principais termômetros para medir a confiabilidade das empresas, e esse episódio revela que mesmo portais de referência podem ser manipulados a todo instante, e o quanto as empresas estão dispostas a pagar para veicular uma imagem que não condiz com a realidade.

Captura de tela da página do iFood no site “Reclame Aqui” no dia 09/04/2022.
Captura de tela da página do iFood no site “Reclame Aqui” no dia 09/04/2022.

E se você pensa que o buraco do iFood termina aqui, ele ainda é mais extenso. A empresa foi condenada pela justiça brasileira a reativar a conta de um entregador que foi bloqueado injustamente, por não ter apresentado provas conclusivas que mostrassem as infrações cometidas.

E ainda, segundo um estudo da Universidade de Oxford, o iFood foi avaliado como uma das piores empresas com relação às condições de trabalho no Brasil e América Latina.

Essa denúncia da Agência Pública serve para nos mostrar o quão perigosa a publicidade se torna quando se utiliza meios fraudulentos para proteger grandes corporações. Deixa de ser uma ciência da comunicação para se tornar uma ferramenta de coerção social, atuando desde questões simples do mercado até desfechos políticos. 

Para nós, fica o alerta para a prática do Astroturfing e a conscientização sobre as práticas do app. Existe um movimento nas redes sociais orientando os usuários a não mais fazer pedidos pela plataforma, e sim diretamente pelos estabelecimentos, pois isso aumenta a remuneração dos entregadores e também a segurança do cliente em caso de atrasos e até fraudes no pedido.

O iFood prefere sabotar os coletivos de entregadores e perseguir clientes insatisfeitos ao invés de melhorar seus serviços e remunerações, e isso diz muito sobre a empresa. Nós realmente devemos dar dinheiro e visibilidade para marcas que possuam tais valores?

Resta saber até quando o iFood será considerado um caso de sucesso e empreendedorismo no LinkedIn, ou se vamos abrir os olhos para os escândalos do aplicativo e repensar a adoração que temos por grandes corporações

Enquanto você defende a integridade de uma empresa, esta pode estar desembolsando uma grande quantia para comprar o seu silêncio e impedir que os próprios colaboradores alcancem condições dignas de trabalho.

Um abraço, e a gente se lê por aí.

Referências

O brigadeiro que se tornou abuso infantil graças a um mau-entendido no Twitter

Era uma tarde ensolarada de sábado, no dia 26/03/2022, o Lollapalooza acontecia normalmente em São Paulo, tudo estava correndo bem. E sendo um dia normal, pessoas normais falam sobre coisas normais em suas redes sociais.

Foi o caso do , nosso protagonista, que fez o seguinte post no Twitter:

Tweet: Acabei de oferecer brigadeiro escondido pra uma criança de 4 anos e ela não só negou como me dedurou pra mãe

Um comentário engraçado e despretensioso, certo? Bem, nunca estivemos tão errados, pois logo em seguida, uma enxurrada de comentários atingiu o post, de pessoas acusando o nosso protagonista de promover abuso infantil.

Entre as diversas mensagens recebidas, muitos usuários disseram que era horrível pedir segredo dos pais, pois isso se configurava como uma tática de abusadores e pedófilos, apontaram a irresponsabilidade em oferecer doces sem saber se a criança era alérgica ou possuía restrição alimentar, criticaram até mesmo a necessidade em passar por cima dos pais e se intrometer na alimentação da criança.

Até o momento da produção deste artigo, o tweet conta com 1870 comentários, 13,5 mil compartilhamentos e 187,7 mil curtidas, para entender a dimensão do problema, que foi apelidado de “Brigadeirogate”.

Parece loucura, certo? E fica pior quando inserimos nossa segunda protagonista dessa história, a Thais, que trouxe uma informação bombástica: Zó é tio da criança, que fazia aniversário naquele dia. A festa e os brigadeiros eram dela.

Tweet: Isso não existiu hahahahahah no caso a mãe é a MINHA mãe, a criança é a minha irmã e o cara é meu namorado. A minha mãe tava DO LADO, o escondido foi só porque ele ofereceu só pra ela, a minha irmã caguetou e a minha mãe chamou ela de chata e comeu o brigadeiro no lugar dela

Ou seja, ele ofereceu para a criança um doce feito pela própria mãe da aniversariante, para a mesma criança, que só recusou porque não quis bagunçar a mesa, contou para a mãe e virou piada na família.

Com isso já devia fazer o pessoal cair em si e parar com essa história, mas é a partir daí que começa o capítulo mais interessante: as pessoas começaram a justificar que o Zó era culpado por não explicar todo o contexto e, pasmem, que ainda assim o que ele tinha feito era abuso.

E não para por aí, houve uma avalanche de desinformação, de pessoas com más intenções, afirmando que a Thais não sabia o que estava acontecendo, que a mãe brigou com o Zó pelo que fez com a filha, e inventando mil e uma desculpas ao invés de assumir a falha.

Chegou ao ponto de perfis grandes no Twitter compartilharem o caso com as suas impressões errôneas, alguns sem saber o que estava acontecendo e outros até sabendo, porque o interesse já era pegar o bonde andando e garantir o engajamento.

Obviamente isso saiu de controle, ao ponto do Zó dizer que aquela discussão chegou no trabalho dele.

Tweet: mandaram o tweet do brigadeiro no slack da firma, é capaz de amanhã eu ter que me explicar pra não perder o emprego

A sorte é que foi uma situação simples e fácil de explicar, mas imagina o estrago que essa baderna poderia ter causado, sendo que tudo seria resolvido caso alguém perguntasse o que aconteceu antes de espalhar sem saber?

Esse episódio foi um show de horrores, e infelizmente resume bem como as pessoas estão agindo nas redes sociais. Muitos querem julgar e condenar realidades sem nem mesmo conhecer os fatos, e quando apontam a falha, se esquivam e arrumam desculpas para fingir que estão certas.

Gente chamando o cara de abusador, pedófilo, traficante, ameaçando bater nele, e quando viram a situação, culpam o Zó por não ter explicado toda a história para eles. Sendo que, na verdade, não era pra nenhum dos que vieram se exibir nos comentários.

Até rolou comentários de conscientização, mas baseados numa suposta agressão à criança, e ao notar que não foi tudo aquilo, cobram “empatia” das pessoas por mostrarem que o seu moralismo foi equivocado.

Pergunte quantos desses usuários raivosos se retrataram ou apagaram os comentários depois de saber que estavam errados? Pois é.

Eu falei sobre desinformação aqui no blog um tempo atrás, sobre o perigo de pessoas saírem compartilhando notícias falsas sem checar o fato primeiro. Muitas das pessoas que eventualmente odeiam quando influenciadores fazem isso, em situações como essa agem da mesma forma e ainda se enxergam como corretas.

É preciso agir na raiz disso, usando o bom senso. As informações te deixam com dúvida? Basta perguntar e se informar antes de sair compartilhando. E caso perceba que passou pra frente algo que não aconteceu, tenha a decência de apagar a publicação e se retratar.

Vale a pena cultivar o seguinte pensamento: nem tudo que é dito na internet é sobre mim. Aliás, bem pouco é sobre mim, vale a pena não me meter nisso.

Para encerrar o caso, tanto o Zó quanto a criança estão bem, nenhum aniversariante foi desrespeitado, abusado ou envenenado no decorrer da história. Apenas a noção foi gravemente ferida pelos internautas.

E apesar do desconforto, tivemos o privilégio de ver a seguinte resposta para uma das usuárias pretensiosas que continuavam mentindo sobre o ocorrido:

Tweet: IÓ, IÓ, IÓOOOO
Falando na sua língua pra ver se você me entende

Um abraço, e a gente se lê por aí.

Por que nós temos tanto medo de sermos taxados de influenciadores?

Você segue ao menos um influenciador digital nas redes, isso é uma afirmação. Não adianta dizer que não conhece nenhum, eles fazem parte da sua vida.

Alguns usam as redes para divulgar seu trabalho, outros passaram a trabalhar com as redes, produzindo conteúdo e fazendo publicidade em seus perfis. Mas todos possuem algo em comum: eles te inspiram a tomar ações e você gosta de acompanhar o trabalho deles.

Mas você tem medo de ser associado a esse universo, e isso te intimida tanto ao ponto de você deixar de colocar o seu projeto nas redes sociais para não correr o risco de “virar blogueirinha”.

Vamos falar sobre isso?

Gente como a gente.

Você provavelmente pula os anúncios que surgem no YouTube ou saltam nas páginas que navega, mas interage em publicações nas redes sociais de pessoas que você admira. Muitos são artistas e celebridades consagrados, outros são pessoas que nós conhecíamos antes da fama, ou quando não tinham tanto alcance nas redes.

Nos sentimos próximos destes, afinal, são pessoas iguais a nós, que trabalham, estudam e se divertem. Elas só compartilham o que sabem e vivem conosco, e nós gostamos de acompanhar essas pessoas que divulgam o seu trabalho nas redes.

E isso pode ser um problema, porque os influenciadores deixam de ser os artistas inalcançáveis que jamais teriam qualquer tipo de contato conosco. Eles são pessoas reais, que poderiam estudar na sua escola, morar na sua rua, até trombar contigo no supermercado.

Isso tira a ilusão que temos sobre a fama, de serem deuses que nunca se misturam com os humanos. Não, os influenciadores são gente como a gente, se bobear, são tão ferrados na vida quanto você.

E isso traz um problema que nós conhecemos muito bem: a comparação.

A grama do vizinho sempre é mais verde.

Nós gostamos de acompanhar grandes influenciadores, comentamos  e compartilhamos os seus posts, mas quando se trata do seu vizinho youtuber ou a sua colega no Instagram, sentimos desprezo.

Muito disso é a nossa sensação de que, quando as pessoas ao nosso redor começam a se destacar, nós estamos perdendo em uma competição que nunca existiu.

Uma coisa é você acompanhar aquela atriz que sempre achou fantástica e nunca vai saber da sua existência, a outra é ver a sua prima conquistar o seu espaço no meio digital. Se ela conseguir, você vai ter que admitir que ela foi capaz e você não, algo que supostamente é “fácil”.

Já passou da hora da gente entender que não estamos em uma competição, e que o sucesso do outro devia ser motivo de alegria, não de inveja. Não faz sentido nós apoiarmos tanto as celebridades que não conhecemos e querer o fracasso das pessoas que convivemos a vida inteira.

Caso a sua vizinha ganhe dinheiro com a internet, ela não é melhor nem pior do que você, ela continua sendo a sua vizinha. Você é que precisa parar de querer que as pessoas ao seu redor continuem na mesma situação que você para que se sinta melhor.

Vale a pena conversar com pequenos influenciadores sobre o assunto, pois a maioria deles passou exatamente por isso: a mudança de comportamento dos conhecidos quando passou a ter relevância na internet.

Esse, aliás, é outro ponto importante para discutirmos, e entender a raiz do nosso desconforto com a influência digital.

Você é pago pra isso?

Quantas vezes você achou que era “vida fácil” trabalhar com o Instagram, gravando vídeos e postando fotos? E realmente parece um absurdo ver pessoas ganhando dinheiro apenas produzindo conteúdo.

Mas a pessoa ganha dinheiro com a produção de conteúdo porque aquilo que ela produz traz algum valor para as pessoas, um conhecimento adquirido pelo trabalho, estudo e vivências dela.

Com a pandemia, muita gente teve que aprender a usar as redes sociais para conseguir manter seu trabalho, e alguns se saíram tão bem que ganharam muita visibilidade, ao ponto de ter uma audiência legal e fazer dinheiro com isso.

Outras pessoas apenas compartilham assuntos que gostam ou vivem, e depois de muito tempo sem visibilidade, hoje conseguem usar o que fazem para complementar a renda ou até mesmo pagar as contas.

Você é contra que jogadores de futebol recebam dinheiro para representar o seu time? E que os atores sejam pagos para encenar as suas novelas e filmes preferidos? Então qual é o problema de um pequeno influenciador ganhar dinheiro com o conteúdo que ele produz e te agrada?

E convenhamos que produzir conteúdo não é fácil. É preciso muito estudo e dedicação para produzir um único texto, quem dirá montar edições de imagens, fazer um vídeo, gravar um podcast.

Parece fácil até você começar a fazer o mesmo. Pois quando se dá conta que aquele reels incrível que você até compartilhou pode durar horas de gravação e edição, você começa a entender que é justo ganhar dinheiro com isso.

Tem tanto influenciador péssimo fazendo sucesso…

Claro, eu não poderia continuar esse artigo sem falar dos terríveis inimigos do riso e do bom senso, que geralmente são os influenciadores mais famosos nas redes sociais.

Não vou citar ninguém aqui pra não rolar o não tão querido processinho, mas eu tenho certeza que você já deve ter pensado em alguns nomes. São pessoas que ninguém entende porque fazem sucesso, já que não possuem talento, carisma, e muito menos conteúdo.

Existe um questionamento muito grande sobre o que é ou não é conteúdo, e isso inclui muitos criadores que fazem sucesso apenas com selfies e dancinhas. Para simplificar as coisas: considere como conteúdo tudo que é produzido na internet que possui valor, conhecimento e propósito.

Se você apenas posta fotos suas e se considera influenciador, talvez seja melhor reconsiderar. Mas se você é modelo, artista, estilista, dançarino, ou tenha qualquer função que apresente um propósito pelo qual está fazendo essas fotos, é super válido.

Você vai encontrar centenas de pessoas que não agregam em nada na internet mas ganham fama por estar dentro de um padrão de beleza ou financeiro, essa é a parte menos digna da influência. Nem sempre é justo.

Porém, profissional ruim você encontra em qualquer área, e dentro dos influenciadores é a mesma coisa. Você não enxerga a classe médica como inútil ou pouco profissional por causa dos que são ruins, então não enxergue os influenciadores como tal por causa desses seres pouco iluminados.

Além disso, comece a se questionar porque esse tipo de gente faz sucesso. Quantos do tipo você segue e acompanha fielmente, mesmo achando que seu conteúdo é superficial? Se ninguém der palco, maluco não faz show.

Será que eu consigo fazer isso?

Beleza, vamos recapitular: você não se alegra com as conquistas do outro, não quer que as pessoas ao seu redor sejam mais bem sucedidas do que você, acha que trabalhar com a internet não é trabalho de verdade e enxerga os influenciadores como fúteis.

Mas em um determinado momento, você muda a sua mentalidade e resolve arriscar, divulgando o seu trabalho e as suas ideias nas redes sociais. Sabe o que acontece agora? Você precisa lidar com todas as outras pessoas que pensam igual a você.

Nós temos medo de gravar um stories ou produzir um conteúdo mais elaborado sobre o conhecimento que temos ou o trabalho que fazemos, por saber que muita gente vai torcer o nariz com isso.

“Olha lá, tá se achando a blogueirinha!”

“Tá com tempo de sobra pra ser influencer, né?”

“Agora só quer essa vida boa de influenciador.”

Quantas vezes você disse ou pensou isso de alguém? E agora é você quem está ouvindo essas frases agressivas simplesmente por ter dado a cara a tapa.

É uma mudança brusca, e isso intimida mesmo. Você começa a perceber que produzir conteúdo não é fácil, expor a sua imagem na internet, menos ainda. E lidar com críticas e haters então? Caramba, como os influenciadores conseguem?

Como eu vou conseguir lidar com tudo isso? Simples, lembrando do primeiro item desse artigo: influenciadores são gente como a gente.

Não existe dom divino, herança mística ou berço de ouro que separa pessoas comuns de influenciadores, no final somos todos pessoas como qualquer outra. O motivo pelo qual nos identificamos com esses produtores é justamente nos enxergarmos neles.

E se eles conseguem, por que nós não?

Penso, logo influencio.

“Ok, influenciadores digitais são gente que nem a gente, não existe nada de especial neles, são apenas pessoas comuns que dão duro para produzir conteúdo legal. E eu entendo que eu posso ser um deles também.”

Exatamente, porque você já é um influenciador, mesmo que não tenha se dado conta disso. Todo mundo exerce influência sobre o seu meio, alguns mais do que outros, mas todo mundo pode incentivar as pessoas a tomar decisões, baseado no que dizem e fazem.

Se as pessoas do seu meio não prestam muita atenção em você, é porque o seu público está lá fora, e para encontrá-lo você precisa continuar se arriscando e compartilhando com o mundo o que você faz de melhor. Quanto mais você persistir, mais chances terá de encontrar as pessoas que querem ouvir o que você tem a dizer.

E isso dificilmente acontece do dia pra noite. Muitos dos influenciadores que eu sigo estão na internet há anos, quando nós nem falávamos em produção de conteúdo e influência digital.

Eles não alcançaram a sua audiência do dia para a noite, foi preciso muito trabalho sem qualquer perspectiva de que um dia isso poderia ser remunerado. E hoje eles chegaram lá, então não pense que em algumas semanas você será uma autoridade digital.

Seja paciente e persistente, continue focado em compartilhar o que você sabe e quer dividir com o público, cultive bons relacionamentos com o seu público e outros influenciadores, pois ninguém cresce sozinho na internet.

Mas saiba que nas redes sociais, sempre terá ao menos uma pessoa te ouvindo. Se apenas uma pessoa tomar uma decisão graças ao que você disse, e essa pessoa te procurar para agradecer por isso, será que você já não está influenciando digitalmente?

Afinal, qual é o problema em ser influenciador digital?

Sete em cada dez pessoas que falam mal do surgimento dos influenciadores digitais não sabem explicar o motivo de os detestarem. Essa porcentagem sobe se você estiver no Twitter.

Trabalho fácil? Vimos que não é. Não é trabalho de verdade? Muitos não vivem apenas disso, outros conseguem se sustentar com as publicidades que fazem. São fúteis? Nem sempre, muito pelo contrário. Não é justo ganhar dinheiro com isso? Por que não?

Se você quer compartilhar com o mundo o seu trabalho, seus projetos e ideias, vai fundo. Você vai encontrar pessoas que querem ouvir o que você tem a dizer, e isso é uma relação ganha-ganha.

Você tem dúvidas sobre comunicação digital, eu trabalho com isso e produzo conteúdo para te explicar o que você quiser sobre o assunto. Você pode me seguir e interagir com o que eu posto, outras pessoas fazem o mesmo e eu cresço como profissional, assim como você ao ter novos conhecimentos que podem ser aplicados no seu trabalho.

E se nesse processo tanto eu quanto você nos tornarmos influenciadores digitais de sucesso, qual é o problema?

Ao invés de demonizar a influência, como um antro de futilidade e dinheiro mal gasto, pense que quanto mais você cresce, mais pessoas terão a oportunidade de conhecer o seu trabalho, os seus ideais e a sua história, e podem se beneficiar do que você faz.

Eu acredito muito nisso, é por isso que estou aqui te escrevendo esse artigo, para que você não tenha medo de começar o seu projeto na internet. Fama é consequência, influência é resultado.

E para finalizar, quero te recomendar o episódio “Competitividade versus Colaboração”, do podcast “Dia de Brunch”, conduzido pela Ana Paula Passarelli e pela Issaaf Karhawi. Elas falam TUDO o que eu penso sobre formação de coletividade para influenciadores e criadores, com uma didática tão massa que você vai se apaixonar.

Vamos juntos desbravar o mundo da produção de conteúdo e influência digital?

Quando a sua opinião se torna desinformação, volte três casas

Esse poderia ser mais um dos milhares de conteúdos que contaminaram a internet sobre a invasão russa na Ucrânia, a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, e até mesmo como você deve investir na bolsa de valores durante esse período.

Vou deixar essa história para outra oportunidade, pois só de lembrar que vi esse absurdo já me bate a revolta.

Como boa parte dos comunicadores, eu poderia usar esse espaço para dar a minha opinião sobre o assunto, mas vou seguir o caminho inverso para reforçar uma das coisas mais importantes que nós deveríamos entender sobre influência digital e produção de conteúdo: 

Você não precisa, e algumas vezes nem deve, dar a sua opinião sobre tudo.

Para ilustrar essa ideia, vamos observar o caso da Rafa Kalimann, influenciadora mineira e ex-BBB. 

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia neste dia 24, a Rafa fez uma série de cinco tweets explicando aos seguidores sobre os motivos que levaram à investida russa. E obviamente isso repercutiu muito mal, pelos seguintes motivos:

  • Ela começa o resumo dizendo ser a sua visão pessoal sobre o conflito;
  • Compara OTAN a URSS, sendo que a segunda foi um país, enquanto a primeira é uma aliança militar. Organizações diferentes com atuações diferentes;
  • Erra ao dizer que a capital ucraniana, Kiev, já foi capital da Rússia, que nunca aconteceu;
  • Apresenta uma visão bastante reducionista e simplista do conflito, ignorando vários elementos russos e ocidentais que contribuíram com a guerra;
  • Usuários perceberam que ela copiou as informações de outra pessoa, um estudante de História, sem dar os créditos;
  • Ao ter os equívocos apontados na série, fez outro tweet debochando dos usuários.

Só por esses motivos já entendemos porque a atitude dela pegou tão mal, mas é essencial frisar uma informação desse resumo: sem ter qualquer conhecimento em geopolítica do leste europeu, a Rafa decidiu dar a sua opinião sobre toda uma trama de acontecimentos que culminou numa guerra.

Talvez você acredite que a intenção dela foi boa e que não é necessário criticá-la por ter se esforçado, só que essa atitude é mais uma disseminadora de informações falsas, e para alguém com 3,2 milhões de seguidores no Twitter, o alcance disso é gigantesco.

Vale lembrar que o Twitter é conhecido por ser uma rede de distribuição de conteúdo, muito do que é produzido nessa rede é replicado em outras mídias. Assim aumentamos o potencial de pessoas impactadas por uma série de informações falsas.

Se a Rafa tem uma visão alinhada aos EUA, a análise dela sobre o conflito é uma. Caso ela seja pró-Rússia, será outra. E nesse meio ela segue influenciando pessoas, que compram o seu discurso como verdade absoluta por considerá-la uma referência.

Esse problema surge da ideia que ciências humanas não são ciências, e podem ser entendidas como opinião. Mas fatos históricos são fatos, contextos não podem ser desprezados, e quem não entende do assunto não pode explicar o que não conhece.

Se um influenciador resolve opinar sobre como médicos devem conduzir uma cirurgia sem ter formação médica, ou questões envolvendo a construção de um prédio sem ser engenheiro, arquiteto e afins, nós não devemos levar em consideração, certo?

Da mesma forma, para opinar sobre a invasão da Ucrânia, é preciso saber sobre o assunto e ter responsabilidade com a informação transmitida.

Quando a sua opinião se torna desinformação, volte três casas, para o seu bem e da sua audiência. Não dá pra tolerar que pessoas sem qualquer noção sobre um assunto resolvam se tornar porta-vozes daquilo que desconhecem. Isso é nocivo.

E como ela poderia ter conduzido o assunto? Exatamente como o Casimiro fez.

O youtuber e streamer convidou para uma live Tanguy Baghdadi — professor especialista em Política Internacional — ajudando o seu público a compreender o que estava acontecendo e tirar suas dúvidas com alguém que pode dar respostas concretas e embasadas.

A partir do momento que ele usa a sua visibilidade para dar voz a quem entende do assunto, ele direciona sua audiência às fontes confiáveis de informação. Isso ajuda a diminuir o medo e a histeria, além de impedir que teorias da conspiração e rumores falsos surjam sem controle.

Isso não é diminuir os influenciadores que não possuem uma formação acadêmica completa — o famoso academicismo — é entender que, como comunicador, você precisa ter propriedade naquilo que deseja abordar. Seja por estudos próprios, seja por uma pesquisa de trabalho.

Esse episódio nos ajuda a entender que, caso você não saiba o bastante sobre um assunto, é legal se preservar e poupar sua audiência. Ao invés de buscar visibilidade em cima de algo que está em alta e você não domina, por que não focar no que você entende e faz de melhor?

Portanto, uma internet segura e responsável se faz com menos Kalimanns e mais Casimiros, sua inteligência moral de admitir que não entende sobre algo, mas se dispõe a dar espaço para que alguém capacitado possa tomar a frente. 

Não é vergonha nenhuma dizer “não sei o suficiente disso” e ouvir o que os especialistas têm a dizer. Nós devíamos experimentar isso mais vezes.

Recomendo fortemente o episódio “O que Brand Safety, Flow e BBB têm em comum?” do podcast Dia de Brunch, conduzido pela Ana Paula Passarelli e pela Issaaf Karhawi. Elas passam uma visão interessante sobre o posicionamento de influenciadores em relação à profundidade do seu conteúdo.

Um abraço, e a gente se vê por aí.

Manifesto conteudista: morte ao fast content e união da classe produtora

Esse texto é um desabafo, mas também um manifesto: produzir conteúdo é esgotante, e muitos de nós já não aguentam mais.

Talvez você possa pensar que essa ideia é um tanto derrotista da minha parte, já que os gurus nos ensinam a persistir e não desistir, estudar enquanto eles dormem, produzir enquanto eles descansam, e por aí vai.

Derrotista ou não, essa é uma realidade. Eu mesmo zerei a minha criação nos meus projetos, e há muito tempo não vejo mais os meus colegas se dedicarem aos seus perfis. Será uma coincidência, ou apenas as consequências do fast content?

Para quem desconhece o termo, fast content se refere ao método de produção em massa, estimulando criadores a postar 7 vezes por semana, aparecer nos stories, gravar vídeos, fazer lives e tudo mais o quanto antes, ou a sua audiência não vai se fixar em você.

Obviamente, essa cultura não é nada sustentável, já que produzir conteúdo leva tempo e esforço, e quando feita às pressas costuma dar ruim. Aliás, produzir conteúdo é um trabalho, e muito mau remunerado.

Por trás de toda pessoa que pede para que os seus produtores atualizem com mais frequência, existe alguém acabado que já não sabe mais como inovar e como se manter financeiramente em seu projeto. Isso é desgastante.

Eu tô usando o tempo para focar no meu trabalho fora da internet, já que fazer posts 6x por semana no Instagram não tem pago as minhas contas. Isso significa que desisto? Claro que não, apenas cheguei à conclusão que esse ritmo é absurdo e impossível de manter.

Aliás, recomendo esse texto da Sue Coutinho sobre a falência do fast content. Apesar de ser curtinho, ele sintetiza tudo o que eu penso sobre o assunto, então te convido à leitura.

No último episódio do podcast eu comecei a falar sobre slow content, e agora aproveito a deixa para prosseguir: nós devemos repensar essa cultura de alta velocidade com alta performance.

Tornou-se uma obrigação criar uma Monalisa por dia para manter o engajamento, mas ninguém consegue entregar essa expectativa tão alta, ainda mais fazendo totalmente de graça.

Ou você faz um trabalho bem feito ou você faz rápido e constantemente. Os dois juntos? Só pagando muito bem. Está disposto a isso?

Você que exige mais atualizações, já pensou em colaborar financeiramente com o seu produtor? Se ele puder bancar as contas com o trabalho dele, é mais fácil produzir com maior constância e qualidade.

Já você, produtor, tem buscado monetizar o seu conteúdo? Porque essa é a melhor forma de contornar essa situação e valorizar os seus corres. Eu também tenho pensado mais nisso, não é vergonha ou arrogância querer viver do seu projeto digital, e na atual circunstância, dinheiro é sempre bem-vindo.

Mas também devemos pensar que, se ainda não conseguimos monetizar o nosso trabalho, ou não o suficiente, não é hora de fazer mil e um investimentos nem nos desdobrar em trinta para produzir mais, ao contrário do que os gurus estão nos enchendo o saco para fazer.

Nem sempre aquele curso milagroso de “apenas” 10 parcelas de R$200,00 que te promete desbloquear o algoritmo e ganhar 1000 seguidores por dia é o que você precisa. Pode ser apenas umas férias mesmo, e tu ainda gasta bem menos.

É preciso pensar de forma inteligente, pois você pode até querer se desdobrar em trinta para manter suas redes atualizadas, mas o seu organismo aguenta isso até certo ponto.

Faça um trabalho pensado, não pesado. Pega a visão.

Slow content deveria ser o modelo a seguir, já que por anos os meios de comunicação apostam em formatos mensais para dar conta da qualidade. Por que não trazer essa cultura de volta?

Até mesmo repensar se as redes sociais de fato são o melhor ambiente para isso, ao contrário dos blogs e vlogs, que foram deixados de lado na última década. Era uma época boa, quando a gente podia publicar no nosso ritmo, em um espaço que era nosso, sem cobranças nem um algoritmo safado. Nós poderíamos voltar a produzir dessa forma, apenas pelo prazer de se comunicar na internet.

E se você acha que nunca vai crescer dessa forma, porque o algoritmo jamais prioriza um produtor que valoriza mais a qualidade das suas postagens do que a quantidade, a resposta é simples: colaborar é melhor do que competir.

Essa frase da Efeito Orna me acompanha desde o momento em que conheci as ideias das irmãs Alcântara, e mais do que nunca passei a refletir sobre o real significado dessa ideia.

Nem todo mundo precisa ser produtor de conteúdo, e nem todo produtor quer ou consegue manter um ritmo frequente. Mas nós fazemos isso porque compramos a ideia de que todo mundo tem que usar as redes para divulgar o seu trabalho.

Ao invés de ter várias pessoas diferentes se matando para produzir posts isolados, seria mais inteligente unir forças em uma direção só, para que a união de conteúdos gerasse a constância necessária.

Isso significa que você deixa de trabalhar a sua marca pessoal? De forma alguma, porque o que foi feito por você tem a sua essência e o seu toque, aposte sempre na sua forma única de fazer o que outros já fazem.

Mas não tenha medo de colaborar com um grupo de criadores, pode ser o que você precisa nesse momento. Sem medo nem forçar os seus limites, respeitando o seu ritmo de criação.

Eu decidi abrir as portas da Grambélia para quem quiser contribuir com esse universo da Comunicação Digital. Se você sabe sobre o assunto, quer se tornar uma autoridade na área, mas não tem tempo nem saco para manter consistência nas redes, vamos trabalhar juntos.

Produtores de conteúdo de todas as redes, uni-vos! Porque não podemos mais nos render a essa necessidade doentia de produzir freneticamente como se não houvesse um amanhã.

O amanhã existe, e talvez as redes que escravizam o nosso tempo nem farão parte dele, mas você continuará tendo todo esse potencial escondido aí dentro, que poderia ser mais bem aplicado dentro de um ecossistema inteiro, ao invés da solidão do seu perfil.

Desde já, desejo um feliz natal e um excelente ano novo, que em 2022 você decida guilhotinar de vez o fast content e tornar o seu projeto um centro de satisfação e retorno, até mesmo financeiro, ao invés de uma simples obrigação compulsiva.

Um abraço, e a gente se lê por aí!

O Instagram ainda vale a pena?

Já faz algum tempo que eu, Gabriel Bellia, não produzo mais conteúdo no Instagram, e durante todo esse período fiquei me questionando se valia a pena retornar.

Lá no Instagram eu comecei o Tá Difisio e depois a Grambélia, por quase um ano eu produzi conteúdo seis vezes por semana, sem parar. Já cheguei inclusive a gerenciar cinco contas ao mesmo tempo, sendo uma delas de um cliente e as demais eram projetos meus.

Eu tenho até um artigo aqui no site falando sobre os nove motivos para estar no Instagram, justamente por acreditar no potencial da rede, e então parei toda a minha produção.

Como e por que um especialista em comunicação integrada no Instagram decidiu repensar sua presença na sua rede de especialização? Fica comigo que eu te conto!

Instagram X TikTok

Essa história começa no dia 30 de junho de 2021, quando Adam Mosseri, chefe do Instagram, fez uma publicação nas suas redes sobre as principais mudanças que poderíamos esperar para a plataforma.

Fonte: Adam Mosseri (Twitter)

Nisso, ele confirmou uma suspeita já antiga entre os usuários: o Instagram decidiu priorizar os conteúdos em vídeo para rivalizar com TikTok e YouTube.

O Instagram no início era uma plataforma de fotos, que acabou aceitando conteúdo em vídeo no feed, limitado a 1 minuto. Depois disso lançaram o IGTV, em 2018, que permitia mais tempo de duração, e mais recentemente os Reels, agora em 2020.

E a rede já mostrava um comportamento predatório, como a implantação dos Stories em 2016 para ultrapassar o Snapchat, depois de não conseguir comprar a empresa. O IGTV foi pensado para derrubar o YouTube, enquanto os Reels tinham o propósito de tirar mercado do TikTok.

O mesmo modus operandi do Snapchat: a empresa se nega a vender suas ações para o grupo Facebook, então eles lançam uma ferramenta similar e a promovem intensamente nas suas plataformas.

Contudo, o TikTok cresceu de uma forma que o Instagram não conseguiu acompanhar, e com isso todo o foco da rede caiu sobre o Reels. O próprio Adam cita isso em seu vídeo:

“Nós não somos mais um aplicativo de compartilhamento de fotos, ou um aplicativo de compartilhar fotos quadradas. […] Porque sejamos honestos, há realmente uma grande competição agora. TikTok é enorme, YouTube é ainda maior, e existem muitos outros iniciantes também.”

Adam Mosseri

E com isso ele afirma que o Instagram agora estará focando nos conteúdos em vídeo. O que ele não conta é que isso significa tirar o alcance dos conteúdos estáticos para dar visibilidade aos Reels.

Tanto que mudaram a interface da página inicial do app, colocando a aba Reels no lugar do botão de Enviar Conteúdo, a região de maior destaque da tela. Isso não foi feito à toa.

Mas qual é o grande problema disso?

O TikTok nasceu e cresceu como uma plataforma de vídeos curtos, o Instagram não. Sua especialidade eram as fotos, tanto que o nome do app vem de instant telegram, uma rede de fotos instantâneas.

Por mais que o Instagram inseriu vídeos e outros recursos, ele ainda era reconhecido como uma plataforma de fotos desde 2011, e depois de criar essa reputação sólida por nove anos, a rede jogou tudo para o alto para se tornar um aplicativo de vídeos similar aos que já existem.

O Instagram era soberano entre as redes de fotografias, e agora luta para se assemelhar às redes de vídeos que já estão consolidadas. O grupo destruiu o que havia de mais poderoso no Instagram: sua identidade.

Quem usava o Instagram, usava pelas fotos. Quem se encontrou no TikTok, foi pelos vídeos.

Achar que um público de fotos vai se tornar um público de vídeo, e que um grupo que já está familiarizado por um app de vídeos vai trocá-lo por outro similar, não foi uma aposta inteligente. Simples assim.

E isso leva a outro problema.

E se eu não gostar de vídeos?

Imagina que você começou a fazer faculdade de Administração. Você viu a proposta do curso, se identificou com a grade curricular, e tomou a decisão de seguir a área.

Porém, a instituição percebe que o curso de Veterinária está em alta, e resolve transformar o curso de Administração em Veterinária para surfar essa onda. Ela pode atrair mais pessoas interessadas no segundo curso, mas e quem tinha a vontade de ser administrador?

Essas pessoas vão largar o curso e procurar outra instituição, concorda? Pois é basicamente isso que tem acontecido com o Instagram.

Quando você muda a sua identidade, formato e objetivos sem consultar o seu público, está correndo o risco de perdê-lo.

Porque quem acreditava no Instagram desde o começo, estava familiarizado com conteúdo visual. Alguns podem saber o básico ou até mesmo gostar de produção de vídeos, mas não dá para garantir que todos vão seguir o mesmo caminho.

E se a plataforma que eles acreditavam deixa claro que a prioridade é um conteúdo totalmente diferente do que o consagrou, e muito diferente do que estavam acostumados e especializados, uma possibilidade é aproveitar esse conhecimento em outro lugar ao invés de mudar a sua produção.

Afinal, é mais fácil você cursar Administração em outra faculdade do que aprender Veterinária, não acha?

Dessa forma, vale a pena pensar se você realmente quer produzir no Instagram ou buscar outra plataforma.

O algoritmo ajuda ou atrapalha?

Alguns vão rever seu formato de conteúdo para se adaptar às novas políticas do Instagram, outros vão preferir migrar para novas plataformas. Não tem como prever, apenas entender o comportamento dos criadores.

Mas existe outro porém nessa história, que já vem sendo discutido há bastante tempo: o algoritmo do Instagram.

O Adam publicou um artigo no blog oficial do Instagram em junho desse ano sobre o funcionamento do algoritmo. Ele cita que na verdade não existe um algoritmo, e sim vários, que juntos entendem o tipo de conteúdo que cada usuário prefere.

Mas como o resultado final é o mesmo, pouco importa os detalhes, então podemos chamar de Algoritmo numa boa.

O algoritmo é um conjunto de códigos e processos que detectam as preferências do usuário e entregam aquilo que se assemelha aos seus favoritos. E por ser formado por códigos, o algoritmo não é bom nem ruim, e sim eficaz ou não.

Segundo o Adam, o Instagram tem como um dos critérios a sua interação com as contas. Quanto mais você curte, comenta e compartilha as publicações de um usuário, mais chances desse conteúdo aparecer no seu feed.

Com isso já temos um problema: e se eu sou do tipo de pessoa que vê as publicações, mas não comenta nem compartilha? O Instagram vai entender que esse é o meu perfil comportamental ou vai simplesmente inferir que esse conteúdo não me agrada?

Outro ponto é a frequência de postagem. Como a plataforma abandonou o feed cronológico pelo alto volume de publicações, nem tudo vai chegar para você. O Adam cita no artigo que eles evitam “mostrar muitas publicações sucessivas da mesma pessoa”, mas qual seria o número exato para isso?

Se você posta muito — e aqui não temos ideia do que seria esse muito — o Instagram não vai entregar tudo. E se você posta pouco — mais uma vez, não sabemos o que seria esse pouco — as pessoas interagem menos, já que existe uma avalanche de postagens diariamente.

Por isso, o artigo mostra que o algoritmo não entrega o seu conteúdo para todos os seus seguidores.

Cerca de 10% dos seus seguidores verão as suas postagens no feed, os outros 90% não terão conhecimento delas. Quando você tem 100 mil seguidores, 10 mil receberão as publicações, mas para quem tem 100, apenas 10 vão saber que tem conteúdo novo.

E quantos desses 10 vão curtir, comentar e compartilhar? É difícil prever.

Para contornar esse problema, o Instagram oferece o impulsionamento de postagens, em que você promove um post para alcançar mais pessoas, inclusive pessoas que não te seguem.

Mas você percebe que, no fundo, é preciso colocar dinheiro no Instagram para que as pessoas que te seguem — por livre e espontânea vontade e interesse — possam receber o que foi postado dentro da própria rede?

É difícil afirmar que o algoritmo do Instagram é eficaz com todas essas particularidades.

O que você produz X o que o Instagram oferece

Eu disse lá atrás que agora você pode escolher entre começar a produzir vídeos ou migrar de rede, mas a verdadeira pergunta é bem mais complexa do que isso: o Instagram é de fato a melhor plataforma para você?

Falando da minha experiência como produtor de conteúdo, meu ponto forte sempre foram os textos. Eu me expresso muito melhor na escrita, consigo organizar melhor minha linha de raciocínio e ser mais didático escrevendo.

Mas o Instagram não é o melhor lugar para textos, pois temos um limite de 2.200 caracteres, e o seu foco é audiovisual. Se eu quiser escrever, preciso postar uma foto ou vídeo junto.

Se eu quiser montar um artigo completo como esse, não tenho como fazer no Instagram, será preciso achar fotos e vídeos para postar com o texto, e fragmentá-lo para caber em diversas postagens.

Eu sempre bolei meu conteúdo primeiro em texto e depois em imagens, e isso não faz sentido. Ao invés de encontrar fotos que se adequem ao texto, eu poderia postar o artigo em um lugar específico para isso, e talvez ilustrar com imagens.

Detesto fazer vídeos, já tive várias experiências como videomaker que não foram agradáveis para mim, inclusive um vlog no YouTube muitos anos atrás.

Eu me incomodo com a forma como não consigo focar na câmera, se a iluminação não estiver 100% boa, com o cenário, a produção e edição do vídeo, a minha imagem e o que eu estou usando… Se eu me forçar a produzir vídeos, não vou garantir um bom trabalho, já que odeio fazer isso.

É a mesma coisa de quem odeia academia: é melhor insistir na musculação, que você não gosta, ou buscar outro tipo de exercício que te agrada?

Foi assim que eu encontrei o podcast. Eu posso montar o texto para o blog e depois transformar em áudio, sem me preocupar com todos aqueles pontos do vídeo. Assim eu posso explorar outros formatos sem ter essa rigidez de me prender a algo que eu não gosto.

Se você não quer trabalhar com vídeos — o foco do Instagram agora — sugiro encontrar a plataforma que se adeque melhor aos seus interesses.

Para textos, Facebook, LinkedIn, Tumblr, Twitter e Medium são boas escolhas. Para vídeos, YouTube, TikTok e Kwai são alguns exemplos.

Para podcasts, o Anchor vale muito a pena para você que é produtor. É o que eu uso atualmente e te permite publicar em várias mídias, incluindo o Spotify. Mas se você só quer consumir, tente Spotify, Deezer e SoundCloud, entre outros.

E para as imagens, existe o Pinterest, Behance, Tumblr, Twitter, DeviantArt, ArtStation, Snapchat, e por aí vai. Cada rede tem sua especificidade, e você pode encontrar a que mais se adequa ao seu perfil.

Mas os meus seguidores estarão nessas plataformas?

Olha, nem sempre, mas cada rede tem o seu público definido, e pode receber novos usuários todos os dias. Você prefere ter 5.000 seguidores no Instagram que não interagem com o seu conteúdo, ou 100 em outra plataforma que estão sempre engajando com o seu trabalho?

É tudo uma questão de pontos de vista.

Então eu devo desistir do Instagram?

Seria ótimo eu responder essa pergunta com “sim” ou “não”, né? Mas não é tão simples assim, é preciso pensar em vários detalhes, e o principal é: você quer continuar no Instagram?

Eu tenho os meus motivos para me posicionar sobre o Instagram, você pode ter os seus, e os nossos contextos podem não se cruzar. Inclusive, esse é um grande problema dentro do meio de comunicação digital, é muito influencer e guru dando ordens sem conhecer a sua trajetória.

Eu posso sair do Instagram, encontrar outra plataforma e fazer muito sucesso, mas isso não garante que você vai ter o mesmo resultado. Ou então você decide continuar no Instagram, e dá muito mais certo do que eu já consegui.

Você precisa refletir sobre tudo isso que eu apresentei aqui e tirar as suas próprias conclusões, pois somente você poderá definir o que é melhor para você. 

Eu, Gabriel Bellia, decidi não mais ser um produtor de conteúdo no Instagram, vou apenas movimentar as minhas redes esporadicamente, porque eu prefiro investir meu tempo e energia nas redes em que eu possa explorar o que eu faço de melhor: áudios e textos.

Ainda existe vida no Instagram, não podemos negar, e a forma como você se dedica ao seu projeto é um grande indicador de como você vai crescer, independente da plataforma escolhida.

O que eu quero te fazer pensar é: o Instagram não é a única escolha, fazer diversos Stories todos os dias não é regra, e gravar dancinhas para o Reels não é necessário, se você não quiser.

E se me permite um conselho, assista esse vídeo da Nátaly Neri, falando sobre algoritmo das redes, fluxo de conteúdo e saúde mental. Vale MUITO a pena.

Fonte: Nátaly Neri (YouTube)

E é isso. Um abraço, e até mais!

Referências:

Como o suposto inventor do telefone inspirou esse blog

Pensa rápido: Graham Bell é famoso por inventar o que?

Não foi a lâmpada, essa é de Thomas Edison. Também não foi o avião, apesar dessa ser óbvia, né?

Nosso amigo é creditado como o inventor do telefone, sua obra inspirou a área da Comunicação muito mais do que você imagina, mas ele não foi quem de fato inventou o telefone. E ainda de quebra inspirou a Grambélia.

Você quer ser edificado por essa fofoca histórica? Então chega mais.

Inventor do telefone?

Alexander Graham Bell é um inventor escocês, nascido em 3 de março de 1847 em Edimburgo. Ele é associado ao avanço do setor de comunicações, já que o maluco criou o aparelho que permitiu ao ser humano falar com as pessoas mais distantes em tempo real.

O impacto da invenção de Bell foi tão grande que hoje não vivemos sem um telefone celular na mão. Mas se eu te disser que Graham Bell não foi o inventor real do telefone, e que sua vida foi uma mentira, você acredita?

Ok, a sua vida provavelmente não foi uma mentira, mas dizer que Graham Bell foi o primeiro a inventar o telefone sim.

Bem, para entender melhor essa treta, é importante falar sobre o contexto histórico.

Tudo começa pelo começo.

Bom, tudo começa em 1830, quando Samuel Morse desenvolve o telégrafo elétrico. Essa engenhoca transmitia sinais por meio de uma corrente elétrica, de forma a conectar EUA e Europa.

E sim, ele também desenvolveu o Código Morse.

O problema do telégrafo era estar restrito às cabines de transmissão, não era algo que qualquer um poderia ter em casa, e também não transmitia sons.

Thomas Edison fez umas melhorias, mas ainda queriam uma versão que pudesse ser falada, até porque a Western Union tinha o monopólio dos telégrafos.

Guarde essa informação.

O primeiro cientista a desenvolver um protótipo nessas condições foi o alemão Johann-Philipp Reis, que apresentou em 1861 um aparelho que, segundo ele, representava como o ouvido humano funcionava.

Sem querer ele inventou o telefone, mas como só estava interessado em seus estudos em Anatomia, não achou grande coisa. Porém, o seu experimento chamou a atenção de outros inventores, e bem mais visionários.

A disputa de Bell e Gray.

Graham Bell trabalhou por anos nesse projeto, até apresentá-lo em 1876 e patentear o invento. Daí pra frente foram apenas glórias e muitos dinheiros na conta do escocês, afinal, ele inventou o telefone, certo?

Bem, digamos que no mesmo dia em que Bell registrou a patente, aproximadamente duas horas depois, o estadunidense Elisha Gray também registrou a patente do mesmo aparelho.

Parece uma incrível coincidência o escocês ter registrado a invenção às pressas, muito pouco tempo antes de Gray, quase como se alguém tivesse sussurrado ao nosso colega que outro inventor estava para vencer a corrida. Suspeito.

Até porque Bell e Gray eram rivais, ambos estavam trabalhando no protótipo do telefone, mas você pode considerar que foi apenas uma questão de velocidade no registro, não é?

Pois bem, é aí que entra nosso querido amigo Antonio Meucci.

Bell roubou pão na casa de Meucci.

O italiano se mudou para Cuba em 1835 para fugir das questões políticas na Itália, e em 1856 concluiu os seus estudos no aparelho que transmitia sons à distância por cabos.

Ele o batizou de teletrofono, e em 1871 solicitou o registro provisório de patente.

Infelizmente, quando o registro venceu em 1874, Meucci não tinha dinheiro para pagar a renovação, que seriam 10 dólares, e passou a buscar investidores para o seu invento.

E quem supostamente foi um dos ouvintes do projeto? Ela mesma, a Western Union, que não se interessou. Mas a empresa não retornou os registros do invento ao italiano, dizendo que havia sido perdido. E em 1876, o nosso não tão amado escocês registra um aparelho incrivelmente similar ao de Meucci.

A história diverge um pouco nesse ponto: alguns creditam à Western Union o furto do projeto para fazer um acordo com Bell, enquanto outros dizem que o escocês enviou o seu próprio projeto para a empresa e ela não quis, fazendo com que Bell visse uma das apresentações de Meucci e, sabendo que o invento não estava patenteado, copiou a engenhoca e lançou por conta própria.

Como sempre um homem branco pegando algo que não é dele na cara de pau.

Porém, outra informação interessante é que Graham Bell tinha o apoio de Gardiner Greene Hubbard, um advogado e empresário estadunidense, e ele teria relações com o Escritório de Patentes.

Isso explicaria como Graham Bell teve acesso aos arquivos de Meucci e de quebra saberia sobre o andamento de Elisha Gray.

Mas nossa história ainda possui mais um importante capítulo.

Uma batalha judicial com um desfecho nada justo.

Meucci processou Bell por fraude, mas morreu durante o processo, e assim Graham Bell foi declarado o inventor do telefone. A justiça estadunidense reconheceu o trabalho de Meucci na Resolução 269 de 2002, apesar do Canadá ter feito uma moção contra essa decisão dez dias depois.

Canadenses???

Os registros não são muito claros com relação a todo esse processo envolvendo os inventores: uns dizem que a justiça estava pendendo para Meucci, outros que o processo demorou por influência da Western Union.

Mas não há como negar que Graham Bell teve várias condições inexplicáveis que o colocaram na frente da corrida, portanto, não é realmente justo dar a ele o título de “o inventor do telefone”.

Entretanto, o trabalho de Bell para a área de comunicação foi muito mais profundo do que a disputa pelo telefone, e é sobre isso que vamos falar.

O lado pouco conhecido sobre a obra de Graham Bell.

Já sabemos que Bell era cientista e inventor, mas poucos sabem que ele era fonoaudiólogo, e que sua família tem um grande histórico na área.

Sua mãe, Eliza Bell, era surda. O pai, Alexander Melville Bell, professor de fonética e instrutor de surdos. O avô, Alexander Bell, começou como sapateiro e se tornou professor de elocução.

Melville Bell foi um dos precursores da leitura labial, por meio dos seus treinamentos, e a condição de Eliza motivou Graham Bell a cursar Medicina para descobrir formas de ajudá-la.

Vale lembrar que, na época, a Fonoaudiologia não era uma área independente, e sim fazia parte da Medicina.

A família se mudou para o Canadá em 1870, e em 1871 Bell foi convidado no lugar do pai a ministrar treinamentos para surdos em Boston. Isso o fez conhecer Gardiner Greene Hubbard, pois sua filha era surda, e então Graham Bell se casou com Mabel Hubbard, filha do seu grande parceiro de negócios.

Esse conjunto de fatores o levaram a desenvolver o telefone, mas o resto dessa história você já sabe.

Podemos ter um Complexo de Édipo nessa questão entre Bell e Mabel? Possivelmente, junto com a ideia de se unir a um homem bem sucedido para financiar suas pesquisas, usando sua filha como moeda de troca.

Até aqui voltamos a gostar do Bell, certo? Pois então, permita-me jogar a última pá de cal na história desse cretino.

Graham Bell influenciou muito mais do que imaginamos.

O trabalho do escocês para a comunidade surda nos EUA foi muito importante. Ministrou aulas de Fisiologia Vocal e Elocução na Universidade de Boston, abriu sua escola de instrução para surdos e fundou a Associação Americana de Ensino de Surdos e Mudos.

Também é cofundador da Sociedade Geográfica Nacional, responsável pelo National Geographic Channel, e também da Science, a revista científica de maior renome mundial. Teve sua própria empresa de telefonia, a Bell Telephone Company.

Porém, Graham Bell possui um lado negativo que precisa ser dito: ele foi favorável à eugenia da população com deficiência, inclusive a comunidade surda, e suas ideias inspiraram alguns dos experimentos nazistas.

Ele chegou até mesmo a defender a esterilização de surdos para impedir que eles disseminassem sua “falha genética”, fazendo com que a comunidade surda hoje não considere o legado de Graham Bell como algo positivo para a história.

Talvez você pense: “ah, mas devemos separar o autor da obra, provavelmente era um pensamento comum na época, não podemos problematizar isso.”

Sim, nós podemos e devemos.

Começando pelo fato de que se as ideias dele fossem aplicadas, o próprio Bell não teria nascido, pois a sua mãe é surda, lembra? Ele também se casou com uma mulher surda, e dedicou sua carreira à comunidade surda.

Como essa pessoa resolve afirmar que pessoas surdas são defeitos genéticos e sequer deveriam ser consideradas seres humanos?

Que tipo de trabalho é esse que visa melhorar a vida de pessoas surdas, e ao mesmo tempo defende que essa população seja segregada, exposta a experimentos degradantes e seja impedida de ter uma vida normal?

Podemos entrar em uma grande discussão ética nesse contexto, citando até mesmo a ciência nazista, mas gostaria de resumir a discussão em um pensamento:

Se você pretende fazer ciência e negócios sem considerar a diversidade e humanidade em todos aqueles que não se parecem com você, suas ideias não servem pra nada.

E como a Grambélia entra nesse meio?

Você está vendo o nome Graham Bell tantas vezes que já deve ter se tocado, mas caso ainda não teve o lampejo de inspiração do seu neurônio solitário, presta atenção aqui:

O nome Graham Bell se pronuncia “Gram Bél”. O meu sobrenome é Bellia, apesar de frequentemente as pessoas pronunciarem como “Bélia”, quando na verdade se diz “Belía”.

Juntou as peças agora?

Pois é, quando estava fazendo um processo de ideação para definir o nome do meu blog, Grambélia surgiu ao me lembrar de Graham Bell e seu legado na criação do telefone.

Porém, depois de fazer isso, fui pesquisar sobre a história dele, para saber com o que de fato ele contribuiu ao longo da história, e meu primeiro choque foi descobrir essa treta toda.

Graham Bell não foi o real inventor do telefone, apesar de sempre termos aprendido isso. Isso me faz pensar que a Comunicação é muito diferente do que pensa o senso comum, e se você não estudar muito, corre o risco de estar sempre errado em sua abordagem.

Acima de tudo, Comunicação é uma ciência e deve ser tratada como tal. Não se pensa em comunicação sem estudo e prática, não deve ser baseada em achismos e amadorismo.

Mas Bell teve uma carreira muito maior como fonoaudiólogo. Ele aplicou os conceitos de saúde em suas estratégias de comunicação e revolucionou a história da educação de surdos. E eu, enquanto fisioterapeuta e comunicador, penso o mesmo.

Não é à toa que muitos profissionais da saúde não crescem, porque nós não aprendemos o básico sobre comunicação com os pacientes e familiares, quem dirá sobre comunicação digital.

E como eu quero me especializar em Comunicação em Saúde, essa trajetória de Graham Bell me fez pensar que é o caminho certo.

Você deve ter pego antipatia dele pelo furto de ideias, depois simpatia pela sua dedicação à comunidade surda dos EUA, e no fim voltou a sentir desprezo pelo seu pensamento eugenista (espero).

Como um cientista e professor de eloquência para surdos defendia que eles eram falhas genéticas e não deveriam se reproduzir?

Este é o grande X da questão: sem consciência social, qualquer pauta e trabalho corre o risco de cair no obscurantismo.

É por isso que muitos surdos não o consideram como um legado digno, já que no fim ele defendia a esterilização dos surdos e embasou em boa parte a política nazista.

Honestamente, eu tô de saco cheio de ver gurus do marketing querendo convencer as pessoas que o Instagram é a resposta para tudo, enquanto 25% da população brasileira não tem acesso à internet, segundo a PNAD 2020.

O que eu mais vejo pelas redes são os tais gurus vendendo cursos que garantem que a pessoa será bem sucedida nas redes, mas ao analisar o conteúdo você percebe que é simplesmente vazio.

Vendem fórmulas mágicas e se sustentam disso, porque todo mundo está tão desesperado por ganhar dinheiro com a internet que só percebem a cilada depois de pagar “apenas” 12 parcelas de R$ 300,00.

Portanto, esses valores me guiam enquanto profissional de comunicação, e meu objetivo com a Grambélia é ajudar os profissionais autônomos, da saúde e produtores de conteúdo a entender melhor os aspectos da comunicação digital e como aplicá-los em seus negócios.

Prometo a você enriquecimento rápido? Obviamente não, porque isso não existe. Para você lucrar tanto em tão pouco tempo, várias pessoas precisam perder dinheiro, o capitalismo funciona dessa maneira.

Mas ao entender a comunicação digital, como ela pode te ajudar a construir sua marca e as ferramentas que a internet te oferece, eu posso te mostrar por onde começar e como chegar lá.

Sendo assim, bem vindo à Grambélia! E se precisar de ajuda profissional, mande um e-mail para contato@grambelia.com.br e vamos conversar!

Referências:

O mito do bom profissional da saúde prejudica a comunicação digital

Se você é um profissional da saúde, provavelmente já se deparou com o mito do “bom profissional da saúde”. Uma figura etérea, onipresente e até mesmo sagrada, que fazem os estudantes e formados seguir cegamente, sob risco de fracassar na profissão.

Porém, você também deve ter começado a usar mais as redes sociais para divulgar o seu trabalho durante a pandemia. Talvez esteja mais familiarizado, talvez ainda não se adaptou a esse universo.

Mas sabe quem atrapalha diretamente a sua presença digital e te faz não ser bem sucedido nas redes? Ele mesmo, o mito do bom profissional da saúde, e quanto mais cedo você se desprender dele, mais fácil será a sua trajetória no meio virtual.

Ficou curioso sobre o assunto? Chega comigo que eu te explico!

O bom profissional da saúde precisa ser sério

Segundo relatos, o bom médico e o bom fisioterapeuta — assim como os demais profissionais da saúde — devem ser sérios, formais, ter boa postura e agir como se tivessem controle total da situação. Devem chamar o paciente por nome e sobrenome, não cultivar a intimidade nem amizade, afinal somos profissionais, por favor.

E acima de tudo, ser impessoais.

O que foge dessa regra é visto como pouco profissional e está fadado ao fracasso, pois se você não é sério, não passa credibilidade, ainda mais sendo recém-formado.

Eu vivi isso na prática clínica: fui taxado de pouco profissional por ser afetuoso com os pacientes, por deixar a terapia mais leve e agir com bom humor quando necessário.

Para os pacientes a estratégia deu muito certo. Essa atitude ajudou muito no tratamento, pois os fazia se sentir mais confortáveis, segundo o retorno que eles me traziam e a evolução mostrava.

Contudo, não foi visto com bons olhos por professores e colegas, porque não parecia ser muito profissional. No fundo, ainda impera esse comportamento dentro da saúde: se você não age com frieza e formalidade, jamais será um profissional valorizado.

Fonte: Pavel Danilyuk (via Pexels)

Uma das origens desse comportamento vem da herança médica, que ainda é visto como o líder das equipes de saúde. O médico, na maior parte das lembranças coletivas, é o senhor imponente e autoritário, silencioso, que não se envolve com o paciente e aparenta ter todas as respostas na ponta da língua.

Provavelmente não sorri nem chama o paciente pelo nome, já que não possuem intimidade, e desde o início somos ensinados a temê-los.

Quem nunca ouviu a mãe dizer “obedece o doutor!” ou “o doutor vai te dar injeção se você não se comportar!”? Ir ao médico era visto como um castigo, o lugar onde você só vai quando as coisas estão ruins.

Fonte: Gustavo Fring (via Pexels)

As pessoas associam a imagem do médico a um senhor com cara de poucos amigos que vai receitar um remédio amargo e um tratamento rigoroso. Anos depois, ainda cultivamos essa imagem mental e enxergamos em cada profissional da saúde aquele senhorzinho maligno que nunca sorri.

Ao ver uma pessoa te atendendo que foge totalmente desse estereótipo, é como se nossa mente entrasse em curto e dissesse: “pera aí, certeza que esse cara é médico de verdade?”.

O bom profissional da saúde não posta vídeos no TikTok

Essa figura do bom profissional é tão onipotente por um grande motivo: a própria classe reforça esse estereótipo. Tenho o exemplo perfeito para ilustrar o caso.

Em 2020, o Conselho Federal de Medicina (CFM) de Rondônia emitiu uma nota dizendo ser “falta ética” os médicos postarem vídeos com danças e simulações nas redes sociais, por considerar “falta de decoro profissional”.

A nota em questão estava diretamente relacionada ao TikTok, aplicativo de vídeos curtos que cresceu muito na pandemia.

Fonte: cottonbro (via Pexels)

Autopromoção e divulgação de serviços na área da saúde segue todo um conjunto de critérios fixados nos manuais de ética e conduta. Porém, considerar como falta de decoro um médico usar memes e tendências virais para combater desinformações em plena pandemia?

Existem prós e contras de ambos os lados, mas o que o lado contrário defende é que esse tipo de conteúdo prejudica a imagem do médico enquanto profissional, que o faz ser visto com menos prestígio por usar uma abordagem popular.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Quando você diz que esse tipo de conteúdo não condiz com a medicina, está dizendo que o médico não pode produzir conteúdo na internet como uma pessoa normal.

Ver um médico fazendo um vídeo descontraído nos choca, pois ele desce do pedestal que nunca deveria ter sido colocado e passa a estar no mesmo nível que eu e você.

Fonte: Tima Miroshnichenko (via Pexels)

O TikTok é uma rede que favorece o conteúdo mais espontâneo e divertido. Você pode ter uma abordagem mais formal, mas como o público majoritário são adolescentes, eles buscam por usuários que falem a sua língua. Não pensamos nisso, mas a saúde precisa ser entendida pelo paciente, não o contrário.

Se você trabalha com pediatria, vai ter que desenvolver uma estratégia de comunicação para se aproximar desse paciente. Ao lidar com pacientes pouco instruídos, é preciso simplificar a sua linguagem para se fazer entender.

Uma abordagem descontraída gera um vínculo de confiança com o paciente, porque dessa forma ele percebe que você não é o “Doutor Todo Poderoso”, e sim “gente como a gente”.

Postar vídeos para conscientizar a população também é uma estratégia de prevenção e promoção de saúde.

Será então que o mito do bom profissional da saúde também não está atrelado a um sentimento arcaico de superioridade, e até mesmo arrogância? Outras carreiras não tão prestigiadas não correm o risco de parecer menos profissionais por produzir conteúdo informal. O médico sim.

Já outros profissionais da saúde podem não sofrer esse tipo de represália, por incrível que pareça. Como o médico é visto como o “chefe” e as demais áreas como “auxiliares”, são vistas como profissionais de menor importância, então tanto faz gravar esse tipo de vídeo na internet.

Isso explica porque só o conselho de Medicina se opôs à adesão dos seus profissionais no TikTok. Porém, isso não significa que apenas o médico é assombrado pelo fantasma do bom profissional da saúde.

Para estes, recai outra problemática ainda mais complexa.

O bom profissional da saúde tem medo de se expressar

Além do TikTok, as Lives também cresceram muito na pandemia, principalmente no Instagram. Nesse período, vários profissionais da saúde fizeram vídeos ao vivo para conscientizar o seu público e se afirmar como autoridades no assunto, o que é bem positivo.

Fonte: Karolina Grabowska (via Pexels)

Colegas meus de faculdade fizeram as suas lives e algumas delas eu acompanhei. Se eu fosse apenas fisioterapeuta teria achado excelente, já que o conteúdo era rico, bem abordado e havia profundidade no assunto, não eram pessoas quaisquer falando de um assunto que não dominam.

No entanto, eu assisti também como comunicólogo, e assim identifiquei um padrão: todos eles assumiram uma personalidade neutra para falar com seu público. O mesmo tom de voz, mesma postura, mesmos gestos corporais, mesmas expressões faciais.

Era como se lives diferentes de áreas e temas diversos fossem feitos pela mesma pessoa, e isso é muito ruim quando falamos em comunicação e marca pessoal. Porque o profissional perde a sua identidade nesse processo, o que vai de fato fazer com que ele se diferencie e se torne uma autoridade no meio digital.

O que essa experiência me lembrou foi a nossa defesa de TCC: a forma como se expressavam nas lives era a mesma forma que se portavam ao defender o seu trabalho para a banca. Sabiam que estavam sendo julgados enquanto profissionais, e por isso buscavam a neutralidade na comunicação.

Ou seja: profissionais da saúde são constantemente julgados pela sua comunicação e comportamento, e assim desenvolvem mecanismos para validar o seu profissionalismo. Principalmente na forma de se expressar.

Fonte: Thirdman (via Pexels)

Isso não é exclusivo da saúde, outras áreas também passam por processos semelhantes, mas os profissionais da saúde precisam provar a todo momento que estão aptos a realizar o seu trabalho

O que não é tão difícil de imaginar, já que devemos analisar dois fatores:

  • É uma área que lida diretamente com a fragilidade do outro, algo que não mostramos a qualquer um;
  • Profissionais jovens causam medo e estranheza, pois não aceitamos que alguém mais novo saiba mais do que nós mesmos.

Sendo ou não da saúde, todo jovem recém formado passa pela experiência de ver seus familiares mais velhos discutindo sobre a sua área de formação.

Para muitas pessoas é inconcebível que alguém com menos de 40 anos tenha mais competência e conhecimento sobre um assunto do que ela mesma. Ainda que a pessoa em questão não saiba absolutamente nada daquilo.

Essa é outra herança social que carregamos: nós sempre nos consideramos mais sábios e mais aptos do que os mais jovens.

Nós temos experiências e vivências a mais, aprendemos alguns truques nesse processo, mas a nível profissional e científico, conhecimento está relacionado ao estudo e à prática, não ao envelhecimento.

Imagine um senhor de 65 anos indo ao fisioterapeuta para tratar uma hérnia de disco que negligenciou há décadas, e no consultório encontra uma moça com idade para ser sua neta, que se apresenta como a profissional que irá resolver o problema.

Muitos não aceitariam a ideia, então para convencer que este paciente pode confiar na sua competência, a jovem terapeuta buscará artifícios para parecer mais profissional. Entre eles, usar uma linguagem mais formal e um tom de voz neutro ou imponente.

Aliás, não para parecer mais profissional, já que o conhecimento ela possui, e sim para parecer mais experiente e confiável.

O bom profissional da saúde, no fundo, luta para ser reconhecido

Resumindo a ópera: o mito do bom profissional da saúde foi construído ao longo do tempo por diversos fatores socioculturais, como a visão do médico como topo da hierarquia, e um ser maléfico que impõe medo.

Pela área da saúde lidar com a fragilidade humana, automaticamente entramos na defensiva quando o profissional que nos atende aparenta ser tão humano quanto nós. Isso nos deixa ainda mais inseguros, e se ele for jovem, pior ainda.

É um erro acreditar que um profissional da saúde não tem competência porque ele não atende aos padrões de comportamento que nós criamos.

O fantasma do bom profissional se alimenta do medo causado pela nossa visão distorcida de como um trabalhador da saúde deve se portar, e a primeira forma de combater isso é mudando a nossa mentalidade.

Se dizemos aos adolescentes que com 15 anos eles precisam decidir qual carreira seguir, por que agimos com desconfiança quando esse mesmo adolescente se forma e começa a trabalhar aos 21? 

Até porque muitas pessoas mais velhas adoram se vangloriar por terem começado a trabalhar aos 11, 12 ou 13 anos. Um jovem começando a vida profissional aos 21 não é profissional, mas você aos 13 era?

Por que supervalorizar o médico se os profissionais da saúde atuam em conjunto? Como continuar com essa crença de que um profissional da saúde precisa ser um intelectual convicto se ele é tão humano quanto eu e você?

Fonte: Thirdman (via Pexels)

Não adianta negar, a internet hoje faz parte das nossas vidas. Mesmo os mais conservadores vão usar os serviços digitais em algum momento, por isso a área da Saúde precisa, mais do que nunca, acompanhar a evolução.

Mas como a era digital é recente, começando a se estabelecer no Brasil no início dos anos 2000, temos a ideia de que a internet é coisa de jovem, e o jovem ainda não é visto como um bom profissional.

Quando o trabalhador de saúde está na internet, divulgando seu trabalho nas redes sociais, e usando recursos como vídeos engraçados que os jovens costumam usar, o fantasma do bom profissional recai sobre ele, e assim começa o julgamento por se arriscar no meio virtual.

O profissional da saúde não precisa ser sério nem velho para ser bom no que faz. Ele pode — e deve — usar as redes sociais para divulgar seu trabalho e compartilhar seus conhecimentos com os usuários.

Não precisa sentir medo de se expor nem se sentir menos profissional por usar uma linguagem mais acessível, muito menos por gravar vídeos no TikTok.

Fonte: Negative Space (via Pexels)

O mundo está em constante mudança, basta pensar em como tudo se transformou de cinco anos para cá, e daqui a cinco anos viveremos uma realidade totalmente nova.

A Saúde precisa acompanhar esse movimento, aproveitar o poder das redes para disseminar aquilo que aprendeu na faculdade e na prática clínica, para que todos tenham acesso aos princípios básicos de saúde e cuidado.

Afinal de contas, o bom profissional da saúde é aquele que se faz entender, seja dentro do seu consultório ou atrás de uma tela. As tecnologias e redes sociais são aliadas, e sua maior força é a sua personalidade, seja ela como for.

Porque na era da informação, o conteúdo é rei. E o conteúdo precisa ser autêntico, livre de mitos e padrões pré-definidos.

Um abraço e até a próxima.

Referências